sábado, 28 de novembro de 2009

Perdendo tempo

As pessoas vivem falando que precisam de mais tempo, mas isso é porque as pessoas falam as coisas sem pensar: pois quanto mais tempo a gente tem, mais velho a gente fica. O que a gente quer mesmo é distância do tempo. Quer que ele pare, que ele volte. Queremos gastar o tempo que temos com coisas mais interessantes que ler relatórios ou sofrer por um amor perdido. Não quero ganhar, quero é perder tempo!

Dou um exemplo: achei que a solução para voltar a escrever com mais freqüência no blog era arrumar um tempinho a mais. Não estava conseguindo, então decidi usar menos tempo do que eu estava acostumado. Voltei a escrever, falei um monte de coisas que estava a fim de dizer e até sobrou tempo. Quer pra você?

Adiantando o assunto

Vou falar logo agora que é para não me acusarem de estar imbuído do espírito natalino: estou otimista em relação ao ano que vem. Não estou me esfregando na parede nem andando aos pulinhos como o Lula, já em campanha para 2014, mas estou otimista. Um otimismo desconfiado, mas otimista.

Curiosamente, não tenho nenhuma razão em particular para estar otimista. Trata-se de um otimismo sincero, baseado em xongas e completamente inconseqüente. Um otimismo puro, sem diluentes ou conservantes – e olha que será ano de eleição!

Mas isso tem uma explicação muito simples. Só não sei qual é.

Curiosidade

Queria saber uma coisa: o telefone da Luana Piovani. Quem souber pode me passar, mas eu pediria para evitar deixar recados com a minha esposa. Desde já, agradeço.

Hora da Verdade

Confesse: você também já mandou e-mail sem o anexo.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Engraçado

Esse blog começou com textos de humor. Humor questionável, possivelmente, mas humor. Humor barato, certamente, mas humor. De lá pra cá, todo tipo de escrevinhadura deu as caras por aqui: poesia, haikai, crítica, crônica, narrativa, boletim, mexerico, reflexão e por aí vai, mas o humor ficou mais intermitente, caprichoso, irresoluto. Compreensível, diria o amadorista, pois o texto é reflexo do espírito e varia com a vida. Bobagem! Embora todo o texto seja uma verdade, o verdadeiro escritor é um mentiroso: escreve coisas tristes quando está alegre e pode ser divertidíssimo quando está triste. A inconstância na escrita não é uma atribulação da alma, mas é, preparem-se para uma verdade desnuda, uma afetação da mente. Para o cérebro inquieto e efervescente não há dificuldade alguma em lapidar o texto. Para a cabeça enterrada na areia do cotidiano, o texto vai para onde é possível no momento – e vai decerto aos tropeções com a elegância do bebum e a graciosidade do perneta.

Felizmente, para tudo há concerto, especialmente quando se tem consciência do problema. Para tornar o humor mais freqüente nessas paragens basta meter estímulos na mente do Escritor, à força, se necessário, com jeitinho, de preferência. Sendo o Escritor um amigo próximo (tão próximo quanto possível, uma vez que se trata de mim próprio), a tarefa me parece das mais brandas. Bem sei que as aparências enganam e a experiência prévia mostra que o estilo do Escritor é costumeiramente evasivo e volúvel, dado mais à experimentação que à constância, mas sejamos pragmáticos: o humor é ferramenta preferida do Escritor e não tenham dúvida de que muito pouco será necessário para que a intenção de fazer rir volte a ser uma prioridade.

Contudo desconfio, cá entre nós, que nunca deixou de ser, pois o humor tem muitas qualidades (negro, sutil, mordaz, irônico, despropositado). Hm... Talvez seja o caso de reler alguns dos textos com outros olhos antes de propor mudanças desnecessárias.


sexta-feira, 20 de novembro de 2009

FIFA VS PES










Durante muitos anos quem realmente curtia jogar futebol no Playstation só tinha uma escolha a fazer: Winning Eleven. Tudo bem que os jogos da FIFA tinham todas as licenças e os nomes originais dos jogadores, mas o Gaucho (sem acento mesmo) do Winning Eleven era quem jogava como o Ronaldinho Gaúcho. O FIFA tinha os dentões pronunciados, mas era o Winning Eleven que tinha o verdadeiro futebol mesmo.

Bom, a EA Sports produtora do FIFA e um dos maiores produtores mundiais de videogame correu atrás do prejuízo e, no ano passado, botou no mercado um jogo melhor que o PES 2009 (o nome ruim do novo Winning Eleven), já que a Konami, produtora da série PES ainda não tinha verdadeiramente se encontrado na nova geração de consoles. Mas e em 2010? Qual é o melhor dos dois títulos? As revistas internacionais todas são unânimes em dizer que o FIFA 2010 é melhor, mas o que esses gringos entendem de futebol? Rosca! Então, para ver uma opinião de quem realmente entende do assunto você vai ter que ler o meu review, com uma comparação item a item dos dois títulos.

Gráficos

FIFA: Os estádios são legais, mas os jogadores têm uma cara esquisita. Porém, as animações são de primeira linha e o PES não chega nem perto desse nível de excelência. A bola flui naturalmente e parece ter o peso certo

PES: Os jogadores têm um modelo gráfico melhor e se parecem mais com os modelos reais. As animações estão infinitamente melhores que na edição passada, mas os caras ainda têm que comer feijão pra chegar aos pés do FIFA. Curiosamente, eu sempre achei que a animação do PES era muito legal, mas depois de ver o FIFA o padrão muda.

Vencedor: FIFA

Física

FIFA: Fantástica. A bola é um elemento vivo em campo e até a força com que os jogadores chegam na jogada influencia o resultado de cada disputa. Os jogadores também se movimentam em 360º reais, o que aumenta o realismo.

PES: Os passes e alguns movimentos dos jogadores são meio "encaixotados", quase pré-definidos, mas os algoritmos ainda conseguem variar as jogadas o suficiente para surpreender de vez em quando.

Vencedor: FIFA

Jogabilidade (palavra inventada pelos gamers para substituir o inglês playability)

FIFA: o jogo é mais rápido que o PES, mas é também mais "tumultuado". A FIFA pisou na bola na questão de proporção do campo, e o espaço e o tempo que você tem para fazer as jogadas é menor. Por isso, embora os controles sejam simples – e muito parecidos com os do PES, fazer grandes jogadas vai requerer mais treino e mais reflexo – e as oportunidades para essas jogadas também serão menores. É um jogo mais arcade, que valoriza reflexos rápidos, o que ainda é herança do passado e um pouco contraditório com os avanços em realismo nas outras áreas.

PES: Não mudou grande coisa. A sorte da Konami é que já era excepcional pra começo de conversa. Tem duas grandes vantagens sobre o FIFA (para os brasileiros): a familiaridade (eu, ao menos, jogo essa porcaria desde a sexta edição e essa é a décima segunda ou décima terceira) e o ritmo mais cadenciado, que permite uma maior variação de jogadas e estratégias. A recompensa imediata pro jogador tupiniquim ainda é maior.

Vencedor: PES

Goleiros

FIFA: São melhores que os do PES, mas também mais desastrados. São mais divertidos, porém menos realistas.

PES: São piores que os do FIFA (ou os atacantes são melhores hehe), mas mais equilibrados. Rola um frango de vez em quando, mas é mais raro.

Vencedor: Empate

Inteligência Artificial

FIFA: A marcação e o posicionamento defensivo no FIFA são melhores. Mas a turma de meio-campo e os atacantes têm dificuldades em se posicionar no contra-ataque, por exemplo. O jogador tem um módico controle sobre a turma que está sem a bola, mas nem sempre eles fazem o esperado.

PES: Os jogadores fora do seu controle são horríveis na defesa, mas bem melhores no posicionamento ofensivo. Não é à toa que, em um mesmo nível de dificuldade, jogos que terminam 1 a 0 no FIFA, terminam 6 a 0 no PES. Porém, os comandos para os jogadores sem a bola funcionam mais dentro do esperado.

Vencedor: Empate

Estratégias pré-fixadas:

FIFA: FIFA traz muitas opções aqui, elevando um pouco o nível de complexidade da função, que requer certo investimento de tempo para aprendê-la bem, mas a coisa toda funciona muito bem. Bem até demais pois estão pensando em banir as jogadas ensaiadas dos jogos online.

PES: A mesma coisa de sempre, mas a "ajeitadinha" no time antes da partida começar continua fazendo diferença.

Vencedor: FIFA

Modo liga

Vencedor: FIFA. Tudo, do menu á maneira como as compras e trocas de jogadores são realizadas, tudo é melhor. O modo Be a Legend também é melhor disparado.

Online

Vencedor: FIFA, pois o PES ainda tem um pouco de lag.

Diversão:

FIFA: Pela falta de familiaridade com os detalhes do controle e dificuldade de fazer dribles e jogadas matadoras, o FIFA oferece uma opção equilibrada e sempre com um ou outro elemento inesperado. As partidas são um pouco mais caóticas e às vezes por causa disso, bastante divertidas.

PES: As coisas correm mais ou menos dentro do esperado, às vezes, com um pouco de tédio. As longas corridas dos bons jogadores ainda estão presentes e a troca de bola no meio campo é bem mais cadenciada. Mas a tensão do jogo é maior, porque é muito mais difícil impedir o adversário de fazer um gol.

Vencedor: depende do momento.

Veredito Final:

Pra jogar em casa e explorar a profundidade do jogo: FIFA

Pra chamar os amigos (viciados ou não): PES

Mas se a turma começar a jogar mais o FIFA e se familiarizar mais com os controles, é possível que a Konami seja desbancada tranquilamente. Eu quero mais é que eles se matem fazendo o melhor jogo possível pra mim.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A coisa certa

Você já fez a coisa certa?

Não o que esperam que você faça, não "o melhor dentro das circunstâncias", mas a coisa certa. Não estou falando de uma boa ação e nem uma doação pra Igreja – estou falando de fazer o que é justo, mesmo que isso exponha você de alguma forma ou seja a maneira mais complicada de resolver uma situação.

Não é fácil fazer a coisa certa porque não é qualquer um que pode fazê-la, pois, pra fazer a coisa certa você precisa de certo grau de poder. Precisa ser um juiz, um pai, um chefe, precisa ter a capacidade de tomar uma decisão que pode afetar a vida dos outros. Pra fazer a coisa certa, você precisa ter o poder de fazer a coisa errada.

Você precisa tomar uma atitude inesperada, precisa não ceder a pressões, precisa rever seus valores, precisa ter compaixão e precisa se colocar no lugar de outras pessoas. Dito assim ,parece que fazer a coisa certa é algo extremamente complicado ou difícil e, no entanto, fazer a coisa certa na prática é algo muito simples e direto.

Na vida, existem apenas quatro tipos de decisões que podemos tomar: a que nos beneficia, a que nós achamos que nos beneficia, a que prejudica os outros (mesmo que depois nos beneficie) e a que só beneficia os outros (podendo ou não nos prejudicar). Pense nisso antes de tomar qualquer decisão e veja onde ela se encaixa. Se você fizer essa pequena reflexão de forma honesta e sincera, você fará a coisa certa. E nunca se esqueça de que não fazer nada também é uma decisão.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Bastardos Inglórios


Vamos ser honestos: Bastardos Inglórios não é um grande filme. Veja por que:

1. A trama: embora a premissa seja espetacular, um grupo de ianques entrincheirados atrás das linhas inimigas com o único objetivo de matar nazistas, o desenvolvimento da história é por demais previsível. Talvez não previsível do ponto de vista holywoodiano, mas a verdade é que eu já sabia como a grande maioria das cenas iria acabar – talvez eu tenha visto filmes demais do Tarantino, mas, enfim...

2. Tarantino também se repete na direção: o filme é um cachorro de um truque só: diálogos ambíguos no qual uma das partes está acuada e a outra exercitando o sadismo da tortura psicológica. Bom. Mas fica melhor quando dosado de forma mais parcimoniosa. Também achei que o tom de muitas das cenas ficou intermediário: nem humor negro, nem drama, nem nada. O personagem de Mike Myers não é nem engraçado, nem sério, nem trágico – ficou só esquisito. Algo como: "quase engraçado".

3. A fotografia: Ora belíssima, ora exageradamente B. A dança de estilos funcionou maravilhosamente em Kill Bill, mas, em bastardos, deixa o filme irregular, errando o tom às vezes.

4. A trilha sonora: pontuada pelo exagero, o tom de cartum funciona de vez em quando, mas em Pulp Fiction o mesmo exagero foi usado de forma mais interessante.

Mas é um filme imperdível, porque o fato de Tarantino se repetir como diretor tem suas vantagens:

1. Personagens: Os filmes de Tarantino têm personagens marcantes e inigualáveis e em Bastardos isso não é diferente. O melhor deles é o Coronel Lana, o caçador de Judeus inteligente, histriônico e candidato ao Oscar, sem dúvida. Bradd Pitt chega perto com o seu Aldo Apache, e o restante dos Bastardos também é interessante. Me surpreendeu muito a personagem Bridget Von Hammersmark. A atriz alemã vivida por Diane Kruger chaga a ser mais marcante que a sofrida Shosanna (ou algo aprecido), personagem de Julie Dreyfuss – que está bem no filme, o personagem dela é que é meio burocrático de vez em quando.

2. Diálogos: Tarantino tem um timing peculiar em seus diálogos, frequentemente surreais. E o texto de Bastardos Inglórios, embora inferior em muitos aspectos a outros filmes do diretor, ainda é inteligente o suficiente para ser engraçado e/ou chocante na medida certa.

3. Ousadia: Desde a história, que não segue a História, até as opções de edição, som e fotografia, Tarantino tem o seu próprio livro de regras – e elas, apesar de irregulares, quando funcionam, proporcionam uma experiência única. Só o fato de dar um tratamento de western a um filme de guerra diz muito sobre o jeito Tarantino de fazer cinema.

Enfim, Bastardos Inglórios não é marcante como Cães de Aluguel, não é inovador como Pulp Fiction, não é ousado como Kill Bill. É só mais um filme de Tarantino. Mas, por enquanto, isso ainda é razão suficiente para ir ao cinema.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Caráter

Minha filha participou da Candanguinha, a corrida para crianças promovida pelo Correio Braziliense que começou como Marotinha e mudou de nome sei lá por que.

Orgulho de pai à parte (ou incluso, como queiram), acho a idéia de celebrar o esporte e a saúde no Dia das Crianças muito bacana, mas a organização do evento não foi lá essas coisas, não. Especialmente na formação das filas para a competição. A falta de esclarecimento quanto aos horários das competições gerou alguns tumultos e empurrões, coisa normal em show de rock, mas que tem que ser evitado a todo custo em eventos onde muitos pais estão aglomerados, pois o pai que protege o filho em multidões é um animal perigoso e completamente irracional. Quem já levou o filho a uma chegada de Papai Noel sabe do que estou falando.

Mas a verdade é que a coisa toda transcorreu sem maiores transtornos e o saldo foi positivo, mas duas coisas me chamaram a atenção. Na verdade, foi uma coisa só: a natureza humana, que, mais uma vez, se provou desprezível em dois episódios.

No primeiro, corriqueiro, mas não menos impressionante para um observador atento, assustou-me a pressão dos pais sobre seus filhos. Alguns meninos tinham claramente passado por um regime duro de treinamento e tinham uma lista enorme de instruções a serem cumpridas na corrida:

- Se o boné cair, não pare pra pegar!

- Levante bem os joelhos para ter mais impulsão na passada.

- Não olhe para o papai – concentre-se na corrida.

- Olha o sprint final!

- Posicione-se bem na largada.. etc.

Devo confessar que também dei lá minhas instruções para minha filha, algumas bem parecidas com as daí de cima, mas em um clima de descontração e ressaltando que o importante era participar e dar o melhor de si. Não deixa de ser cobrança e acho que pai tem que cobrar mesmo, mas até certo ponto. Porque o certo é cobrar, mas sem deixar de apoiar, estimular, incentivar e compreender, senão a maionese desanda. Algumas crianças estavam extraordinariamente tensas com todo o processo e os pais do lado de fora, mais tensos ainda, de olho na performance do filho.

O segundo episódio que me impressionou é derivado dessa cobrança e do tipo de discurso que o pai faz para um filho antes de uma competição como essa. Em uma das corridas, o menino que estava à frente claramente "fechou" por duas vezes o segundo colocado, que se viu obrigado a reduzir a velocidade para evitar que os dois fossem ao chão. Por conta disso, não conseguiu a ultrapassagem e o garoto de atitude antidesportiva chegou em primeiro.

Tem gente (e aí incluo, aceitando o risco de errar, o pai desse menino) que acha que isso é ser "esperto", que a vida é assim mesmo, que pra ganhar vale qualquer coisa. Eu acho um absurdo e me entristece terrivelmente ver tamanha falta de caráter em um menino de nove anos. O menino não foi desclassificado por causa do ambiente informal da corrida, mas a atitude dele foi motivo de comentário geral entre os presentes. Alguns positivos, outros negativos.

Os maiores defensores desse tipo de atitude são os que minimizam o fato: "Se ele tivesse empurrado o outro seria errado, mas ele só deu um passo pro lado, não foi nada demais". Morro de medo dessas pessoas – as que acham que uma coisa errada é medida pelo ato e não pelas conseqüências.

Embora seja um bom começo, ter caráter não é apenas assumir a responsabilidade pelos próprios atos, mas, sim, assumir a responsabilidade pelo impacto dos nossos atos na vida dos outros.

Mas talvez, assim como os pais "treinadores", eu esteja exigindo demais da humanidade...


 

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A paz - sem comentários...

Olimpo

Não me espanta que o Lula tenha o carisma que tem, ainda mais agora que andou se abraçando com o Pelé. Pois está comprovado: qualquer um que abraça o Pelé tem um aumento automático de popularidade (da Xuxa ao Galvâo Bueno). Apropriado. Afinal, somos ou não somos o país do futebol?

Além do mais, confusões com lei do passe e comentários esportivos inapropriados à parte, tenho imensa simpatia pelo Pelé, que não perde uma oportunidade para melhorar a imagem do Brasil lá fora. Claro, claro, não sejamos inocentes. Todo mundo que saiu na foto chorando na cerimônia de escolha da sede dos Jogos terá benefícios políticos e financeiros com a história (inclusive o Pelé e principalmente o Lula). No lugar deles eu também ficaria feliz.

O carioca também tem motivos pra sorrir. Primeiro porque a decisão reforça o sentimento que eles têm de que o Rio é a melhor cidade do mundo e, segundo, porque se não fosse a violência desmedida da cidade eles provavelmente teriam razão.

Mas e o resto do Brasil? Deve comemorar ou ficar apreensivo?

Haverá muito dinheiro correndo em mãos erradas, mas isso já nem nos preocupa mais. "Isso sempre teve mesmo", dizemos por aí, com tranqüilidade perturbadora. E, embora a organização operacional do Pan tenha sido competente, a ressaca foi ruim, com uma boa parte do investimento feito perdido por má administração.

Mas serei otimista. Não sairei com camisetinha Rio 2016 na rua, mas não dá pra negar que isso tudo pode ser uma grande oportunidade para o Brasil. Tomara que dê certo.

E já estou vendo o Lula voltando ao Palácio do Planalto em 2014 com o discurso: "na minha gestão, eu engavetei os processos do Sarney, a empresa do meu filho fez vários contratos milionários com o governo, abracei o Collor e trouxe os Jogos Olímpicos para o Brasil" – mas os assessores e publicitários, claro, vão cortar a parte do meio. E tome choro abraçado com o Pelé!

terça-feira, 22 de setembro de 2009

SOS 80

Os anos oitenta estão morrendo – literalmente. Recentemente tivemos três perdas significativas: o Michael Jackson, a Farrah Fawcett e, agora, o Patrick Swayze. Como essa foi a década mais legal de todas (não a mais importante, nem a mais revolucionária, mas a mais legal – porque não tem nada mais legal que cultura pop), começo aqui minha contribuição para manter viva a memória dos anos 80.

Meu critério é pegar a primeira coisa da década que passar pela minha cabeça e escrever sobre ela... E vai ser... Ruas de Fogo!

Filme de 1984, dirigido por Walter Hill, meio ação, meio musical e esquisito por inteiro, o filme tinha no elenco Rick Moranis como o namorado rico de Diane Lane (lindíssima e novíssima), que, por sua vez, era ex-namorada de Cody, interpretado por um cara que eu não lembro o nome e não vou procurar na Internet agora, mas que, tem 90% de chance de ser um tal de Michael Parret (ou algo bem parecido).

Eu sei é que a Diane Lane é seqüestrada por um líder de uma gang de bikers (Willem Dafoe, também novão, mas já bem feioso) e o tal do Cody, que é um ex-mercenário (além de ex-namorado), fica sabendo e volta pra cidade pra dar tiros de doze em todo mundo até pegar a namorada de volta (que é cantora de uma banda de rock totalmente anos 80, com direito a calça de couro colada, cabelão esvoaçante e o caralho).

SÓ A DÉCADA DE OITENTA PRA PRODUZIR UM MUSICAL ROCK`N ROLL COM PERSEGUIÇÃO DE CARRO, PORRADARIA E TIROTEIO – E O PRODUTO FINAL AINDA SER BOM!

Você leu direito: o filme é bom! O Rick Moranis é engraçado, a Diane Lane é linda E gostosa, as músicas são fenomenais (incluindo I Can Dream About You, do Dan Hartman), a ação é decente e o final é meio que surpreendente.

Fica melhor ainda se você tiver doze anos de idade, assistindo a uma cópia pirata em VHS com as imagens meio alaranjadas e legendas brancas. Mas só quem foi adolescente nos anos 80 sabe o que é ter esse tipo de prazer.

Pra quem curte música dos anos 80, a trilha sonora do filme é uma das melhores compras que você pode fazer pois, além do hit supracitado, o filme ainda tem preciosidades como Tonight is What it Means to Be Young (com direito a teclados breguíssimos na introdução) e Countdown to Love, sendo que esta última tem um dos melhores arranjos vocais que já ouvi.

Streets of Fire, de Walter Hill, 1984. Os anos 80 morreram! Vida longa aos anos 80!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Respeito pré-datado

Uma vez me disseram que "respeito é algo que precisa ser conquistado". Na hora, fiquei calado. Não porque não tivesse uma boa resposta (o que acontece com freqüência com todo o mundo), mas porque a pessoa já não estava mais muito a fim de ouvir o que eu tinha a dizer (o que, infelizmente, parece ser mais freqüente ainda, especialmente entre políticos e governantes). Mas a frase é infeliz.

Se eu fosse levá-la ao pé da letra, eu poderia simplesmente passar a mão na bunda da primeira moça que visse na rua. Ela não fez nada pra conquistar meu respeito e, portanto, não o merece: passo a mão na bunda e ainda chamo de gorda (mesmo que não seja, só pra provocar)!

Respeito ou a gente tem ou não tem. É claro que podemos perder o respeito por alguém que, aí sim, faça por merecer, mas, em tese, é primeiro preciso respeitar. Ou sou eu que estou falando um absurdo? Tomara que não!

Criações

Tim Schaffer é o criador, ou co-criador, de grandes clássicos dos jogos de aventura para computador e, em alguns casos, consoles. Da sua mente genial saíram obras-primas como Monkey Island, Full Throttle, Grim Fandango e Psichonauts. Seu senso de humor refinado e a caracterização brilhante dos personagens são sua marca registrada. Mas, curiosamente, com exceção de Psichonauts, Schaffer não é dono de nada do que criou. A LucasArts tem os direitos dos títulos e pode fazer o que bem entender com eles sem lhe dar satisfação. Mas, mais curiosamente ainda, eles não fazem. Schaffer e os outros criadores de Monkey Island participaram como consultores de todos os outros títulos da série e essa atitude da LucasArts tem um nome: chama-se consideração.

Uma consideração que fica ainda maior se adicionarmos que Schaffer saiu brigado da empresa. Claro que nem tudo são rosas e, mais de uma vez, surgiram boatos de que a LucasArts faria uma continuação de Full Throttle sem a participação de Schaffer. Mas, por enquanto, são boatos.

Stan Lee também não é dono de nada do que criou (Homem-Aranha, Thor, Homem de Ferro, Quarteto Fantástico, Hulk, só pra citar alguns), nunca foi. Mas está na folha de pagamento da Marvel até hoje - e como presidente (mesmo sem precisar aparecer pra trabalhar), ganha royalties sobre os filmes (ele nunca exigiu, foi uma cortesia), é consultor criativo de seus personagens e sempre faz uma ponta em todos os filmes de seus heróis. Isso se chama respeito.

Já o Darlan, brasiliense criador do Zé Gotinha, teve o personagem tirado de suas mãos por conta de uma tecnicalidade legal e, pra completar, o Zé Gotinha foi explorado por anos sem que se desse crédito, dinheiro ou um agradecimento ao seu criador. E, só recentemente, Siegel e Schuster, os criadores do Superman, foram devidamente recompensados pelo seu trabalho. Isso se chama sacanagem.

Normalmente, quem não respeita o valor de uma criação é aquele que nunca criou, porque não entende o processo. Ou quem é frustrado, que cria apenas coisas medíocres e precisa se apoiar na criação dos outros. Hoje em dia, a legislação protege até mesmo a criação de agências de publicidade, que são contratadas para criar algo de finalidade comercial – nenhum cliente pode usar indefinidamente o material publicitário; é preciso pagar novamente para a reutilização de uma idéia.

Mas o criador solitário, aquele que trabalha dentro das engrenagens da empresa, esse continua desprotegido. A lei tem brechas para que ele vá lutar pelo que é seu de direito, mas o custo é alto (financeiro e emocional) e as garantias são poucas. E, se ele vencer, será também uma vitória solitária, pois ele ficará com o produto de sua criação, mas sem condições de distribuí-lo, ninguém conhecerá o produto.

É uma balança delicada, pois a empresa tem plenos direitos de explorar aquilo que foi contratado (embora o que exatamente tenha sido contratado seja muitas vezes nebuloso) e nenhuma obrigação de ter consideração ou respeito pelo funcionário ou prestador de serviço – essas duas últimas coisas continuam dependendo largamente do caráter das pessoas que têm o controle da situação.

Já me vi dos dois lados da moeda: tem gente que até hoje me pede autorização para utilizar coisas que criei (mesmo sem precisar) e tem gente que acredita que eu não fiz mais que minha obrigação e altera, muda e utiliza minhas idéias sem me dar a menor satisfação (e talvez até precisassem).

É um terreno pantanoso, cheio de altos e baixos legais e morais, mas que pode ser muito facilmente atravessado com um pouco de respeito. O problema é que tem muita gente por aí que já não tem mais a menor idéia do que seja isso, como você vai ver na próxima crônica.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Atropelei o pombo

Pra quem não sabe, a expressão "atropelei o pombo" é usada quando alguém consegue realizar uma sequência de ações improváveis, como no exemplo abaixo:

- Driblei dois zagueiros, bati de trivela, a bola foi no ângulo, fui pra galera e dei um beijão na boca do técnico – atropelei o pombo!

Outra utilização comum da expressão se dá quando uma pessoa age de forma estabanada e descuidada em exagero. Acompanhem o exemplo:

- A Rita chegou à festa já meio bêbada, tropeçou no tapete persa e se agarrou no decote da anfitriã, deixando-a com os seios recém retocados à mostra – atropelou o pombo geral.

Ou pode ser usada quando alguém, enfim, atropela um pombo, que é o meu caso.

Antes que os naturalistas venham com os ancinhos e tochas bater em minha porta, lembro a todos do episódio do Seinfield no qual o George atropela um esquilo e chega à conclusão de que a culpa é muito mais do esquilo do que dele. Ora, esses animais vivem no meio da rua e são conhecidos por desviarem sempre no último segundo. Historicamente, os motoristas não precisam se preocupar com esquilos e pombos. Um bicho desses que se deixa atropelar está sendo, no mínimo, incompetente.

No caso do pombo, há um agravante, pois o bicho tem um cocô ácido que destrói a lataria dos carros e todo tipo de roupa (é praticamente um Alien escatológico). Além disso, suas penas transmitem doenças e provocam bronquite. Não sei quem foi o idiota que escolheu essa ave pra ser o símbolo da paz.

Trata-se, portanto, de um bicho inútil, com um status muito acima de sua qualificação, que está começando a achar que pode fazer qualquer coisa, inclusive ficar ciscando incólume na frente do meu carro. Atropelei mesmo. Alguém tem que botar o pombo no seu lugar antes que seja tarde. Taí o exemplo de alguns senadores e até presidentes que não foram parados no momento certo e agora estão, na falta de uma expressão melhor, atropelando o pombo. E às nossas custas.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Inimigo mesmo

O filme Inimigos Públicos, de Michael Mann, é ruim. Não só porque é pretensioso, pois Miami Vice também era e funcionou, mas pelos motivos que listo a seguir, em detalhes, para o deleite dos mais sádicos:

1. O elenco: Johnny Depp não emplaca como gângster. O rapaz é bom ator, mas ficou tempo demais interpretando tipos esquisitos e não consegue mais fazer o básico. Na pele de Dilinger, ele não consegue ser nem charmoso (como Warren Beaty, Robert Redford, Paul Newman e outros tantos atores que já interpretaram criminosos simpáticos), nem intimidador (como Joe Pesci, Robert DeNiro, Marlon Brando, etc.). Chega uma hora que você fica meio com pena do personagem, mas é o máximo que dá pra sentir. Ele tentou fazer um tipo contido e ficou estranho, melancólico. Tom Cruise, no filme Colateral (também de Michael Mann) faz um vilão muito mais interessante.

Tem uma hora no filme que algo muito importante acontece em função do medo que um policial sente de Dilinger. Pela interpretação de Depp, o medo é completamente injustificado. Até mesmo quando ele tenta intimidar a namorada, a impressão que dá é que ela vai começar a rir na cara dele a qualquer momento.

Christian Bale parece o Batman que trocou a capa e as orelhinhas por um sobretudo e chapéu. Desperdício, já que o cara é bom ator. E desperdício duplo porque o personagem que ele interpreta tinha tudo pra ser ótimo. O caçador de bandidos e um dos primeiros agentes do Bureau of Investigation, Melvin Purvis, é uma figura histórica interessantíssima: altamente eficiente, vivia deprimido e amargurado por se ver obrigado a compactuar com as medidas, mais políticas que policiais, tomadas por J. Edgar Hoover, seu chefe e criador do FBI. No filme, o personagem de Bale é linear e, ao final, quando aparece um textinho dizendo que ele se matou, ninguém consegue entender por que, já que ele parece estar sempre muito confiante e seguro de si.

2. A fotografia: O filme é excessivamente escuro e os supercloses acompanham mal a ação, dando a impressão de que o filme é parado e arrastado até nas cenas de tiroteio. Além disso, é muito cansativo tentar acompanhar o que acontece na tela, e vários personagens vestidos de preto contra o fundo escuro transformam a identificação dos atores em adivinhação. Algumas tomadas são muito interessantes, mas não salvam o todo.

Por conta dos tons escuros, a personagem de Marion Cotillard (a namorada de Dilinger) parece estar o tempo todo de olheiras. No fim do filme, quando jogam uma luz direta em sua cara, é que podemos ver o quanto ela é bonita (justamente no momento em que ela deveria parecer estar com olheiras, cansada e deprimida).

3. A cena de sexo: Dispensável e sem graça. Se não for pra dar tesão, é melhor não ter. O Poderoso Chefão não tinha cena de sexo e, quando quiseram colocar, quase acabou com o filme. Se não deu certo nem em O Poderoso Chefão...

4. O roteiro: Esse era para ser fácil, pois se trata de uma história real. Mas a idéia de dar um "ritmo próprio" ao filme cagou tudo. Tem uma hora que o Dilinger é preso – um dos pontos mais importantes do filme – e não dá pra entender direito o que aconteceu. Parece que teve um incêndio no prédio, os bombeiros vieram, viram as armas de um dos capangas em um dos quartos, chamaram a polícia, a polícia chegou, deduziu quem eram os outros membros da gangue que estavam nos outros quartos, invadiu e prendeu todo mundo. Nesse meio tempo, Dilinger estava olhando a namorada tomar banho. Nada disso é mostrado no filme (apenas a namorada na banheira) e tudo precisa ser deduzido no diálogo entre Dilinger e um dos seus parceiros no crime enquanto eles, aos gritos, são enfiados nos carros de polícia, numa cena que dura 5 segundos. Outros momentos importantes do filme são igualmente anticlimáticos ou, pior, arrastados e previsíveis, como os 15 minutos finais.

Além disso, o roteiro falha em identificar bem os atores coadjuvantes, que vão ficar sem nome ou confundidos com outros personagens até quase o final do filme quando, misteriosamente, as pessoas começam a se tratar pelos nomes, definindo melhor quem é quem, quando você já não está mais se importando tanto assim.

5. O encontro entre Dilinger e Purvis: o que era pra ser um dos pontos altos do filme soa como farsa. A idéia é que Dilinger aparente ser um cara perigoso e intimidador, mas tá na cara que o Batman cobre ele de porrada a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Christian Bale até se esforça para fazer cara de medo, mas não convence (até porque não dá pra ter medo mesmo do personagem de Depp).

Mas o que é bom? Cotillard e o agente do FBI que contracena com ela no fim do filme estão muito bem, a reconstituição de época é impressionante (especialmente os veículos), alguns diálogos são ótimos e a cena inicial é bacaninha, mas o filme é absolutamente dispensável, ganhamos todos muito mais utilizando esse tempo para rever Os Intocáveis, que é um filme de gângster de verdade.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Transitando

Algumas coisas no trânsito me irritam.

Palhaço em sinal de trânsito, por exemplo. Lugar de palhaço é no circo – principalmente porque nunca vou ao circo. Não acho palhaço divertido, não acho engraçado, acho bizarro um homem adulto com a cara pintada de branco, nariz falso e calças folgadas. Não é à toa que muitos filmes de terror têm o palhaço como personagem principal. Tá, alguns palhaços podem até ser interessantes – mas eu te garanto que esses não estão se apresentando no sinal.

Outra coisa que me incomoda é o ciclista que, vindo na contramão (o que já está errado), decide de repente atravessar na faixa de pedestre, dando um pulinho pra fora da bicicleta, como se fosse um Transformer vagabundo, indo de ciclista a pedestre com apenas um movimento. Um cara desses é atropelado e depois ainda te processa, o Optimus Prime dos pobres.

Gente que dá o sinal depois que faz a curva também vai pra minha lista de pessoas que precisam sofrer uma morte lenta e dolorosa. Não sou vidente e, se fosse, ia gastar minha vidência pra ganhar na loteria e não adivinhando pra onde os outros querem ir no trânsito. Tenho quase tanta raiva desse povo quanto da turma que fala ao celular crente que tá abafando, quando, na verdade, está andando no meio da faixa a 30 quilômetros por hora.

Motoboy também não é meu tipo preferido de gente. Tivesse eu feito vestibular pra psicopata, iria com certeza me especializar em serial killer de motoboy. Sei que o cara é pressionado a correr para fazer o seu trabalho, mas, sério, quantos retrovisores esses caras precisam levar pra casa? Eles vendem issso na feira do rolo? Fazem coleção? Competem entre si pra ver quem quebra mais? Motoboy é um cargo no qual bom senso deveria ser pré-requisito, mas achar alguém com bom senso está mais difícil que uma virgem em boate de strip-tease – o que me lembra que estou atrasado pra um compromisso!

Vejo vocês na próxima crônica! E não se esqueçam: a maneira mais segura de dirigir é ser do sexo masculino.

domingo, 28 de junho de 2009

Bad

Morreu Michael Jackson.

Minha primeira reação, nada elegante, diga-se de passagem, foi cair na gargalhada.

Isso se deve, em parte, ao fato de que a notícia me foi dada de supetão, completamente fora de qualquer contexto adequado e, em parte, porque o pobre coitado era motivo de piada há tanto tempo que não consegui levar a sério nem sua morte.

Insensibilidade de minha parte, pois o homem foi importantíssimo para o mundo da música pop, tendo conseguido a enorme façanha de ser o titular do disco mais vendido de todos os tempos. Recorde que, ouso dizer, jamais será batido, especialmente em épocas de download ilegal de músicas e distribuição digital.

É realmente uma pena que ele tenha passado a última década enlouquecendo cada vez mais, distanciando-se não apenas de seu gênio musical, como também da humanidade como um todo. Protagonista de episódios bizarros que vão desde cirurgias plásticas hediondas a pendurar um bebê pela janela (passando por aliciamento de menores), não tenho dúvida de que sua vida dará um filme interessante e chocante, que provavelmente concorrerá ao Oscar daqui a uns dois anos.

Que ele agora tenha a oportunidade de descansar em paz. Mas seu legado musical vai continuar, assim como as piadinhas do homem que foi negro, foi branco e agora vai virar cinza.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Como nos filmes

Cismou de ter um mordomo. Empregada doméstica todo mundo tinha e sempre dava confusão: uma hora falta, outra hora fala mal do patrão, em outra come biscoito escondido e por aí vai. Mordomo, sim, era confiável. Não vê o Alfred? Podia ganhar uma grana preta se revelasse a identidade secreta do Batman, mas, em vez disso, faz a faxina sozinho na Mansão Wayne E na Batcaverna e ainda é médico, psicólogo, ator e faixa preta de tae bo. Tá certo que não lá essas coisas como psicólogo, já que o Batman é meio zureta, mas, mesmo assim, tá muito bom.

Queria mesmo era um mordomo inglês, mas tava difícil sobremaneira de achar um lá em Patos, sua cidade natal. Arrumou foi um infeliz de bigode escovinha, torneiro mecânico desempregado, chamado Mariano que topava ser chamado de Mathew por trinta reais extras no fim do mês.

Alugou um fraque pro Mariano e chamou o sujeito pra conversar.

— Ô Méfiu!

— Não me chama de meu filho que eu não gosto!

— Não é "meu filho", é que em inglês é assim que pronuncia seu nome: méfiu!

— Ah, sim! Meu nome artístico! Tá certo. Digaí.

— Pois é, assim não dá. O visual tá resolvido, mas tá te faltando o treinamento pra mordomo. A elegância do trem (lembrem-se que essa história se passa em Patos de Minas). Faz o seguinte: tá aqui um punhado de filme de mordomo. Assiste a tudo e aí é só fazer igualzinho.

— Igualzinho?

— Tal e qual.

Morreu estrangulado pelo Méfiu duas semanas depois. Em sua defesa, Méfiu alegou que estava apenas cumprindo ordens. Afinal, nos filmes, o assassino é sempre o mordomo.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Inspirado pelo House (de novo)

Se você acha que está fazendo a coisa certa, será que você pode fazer qualquer coisa? Essa foi uma das questões levantadas pelo episódio de hoje de House. O que seria pior: fazer a coisa errada com as intenções certas ou a coisa certa com intenções erradas?

Se quiserem saber minha opinião – e parto do princípio que vocês querem ou não estariam lendo isso aqui – a intenção é uma mentira que ainda não foi contada. Trata-se de uma fantasia, uma farsa. Ela não incrimina, nem absolve porque existe apenas na nossa cabeça. Então, faça sempre a coisa certa, independentemente de intenção.

Vou dar um exemplo intencionalmente hipotético: certa vez enfiaram-me uma faca nas costas, ataram-me a um cavalo e arrastaram o corpo em praça pública. Se você perguntar aos envolvidos, dirão que não era uma faca, que não foi bem nas costas, que não se lembram do cavalo e que a praça, se é que era uma praça, não era pública. Mas, enfim, depois do acontecido, o melhor que puderam fazer foi dizer que não tinham intenção. Um deles, porém – e apenas um de um grupo de, digamos, mais de um - depois de alegar a tal desintenção, desamarrou-me, comprou-me uma caixa de band-aids, deu um beijinho pra sarar e passou lá em casa no dia seguinte para ver como eu estava. Claro que eu o recebi com pedradas e músicas da Kelly Key. Isso não o impediu de, de vez em quando, mandar cartõezinhos de melhora. Durante dois anos! Com bombons! Da kopenhagen!

O que posso dizer? O cara provou que ou estava muito afins de mim ou arrependido (que é outra coisa que não existe sem a ação, sem uma atitude), ele teve a coragem de sair do maravilhoso mundo das intenções. Ganhou meu respeito.

Mas o serumano gosta de valorizar aquilo que não tem valor, como o Domingão do Faustão e a revista Caras. E valoriza tanto as intenções que, para alguns, é preciso, além de primeiras intenções, ter ainda segundas! Políticos, por exemplo, estabelecem toda uma carreira vendendo suas intenções e, apesar de suas atitudes cada vez mais duvidosas, muitos deles vão muito bem, obrigado.

E a prova definitiva de que a intenção e nada podiam muito bem ser sinônimos é que, quando comecei a escrever essa crônica, meu intento era falar de outra coisa completamente diferente.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Caubóis

Você sabe que está entre amigos quando você pode mandar alguém ir tomar no cu sem maiores conseqüências. O máximo que vai acontecer é você ouvir um "vai você" bem-humorado ou, no caso de um "vá se foder" mais sincero, um convite pra botar tudo em pratos limpos.

Entre amigos você pode rir e chorar sem constrangimentos. Pode soltar pum. Pode dormir bêbado no sofá. Pode contar vantagem. Pode até, em casos extremos, trocar tapas. Entre amigos, tudo o que é bom é sincero e tudo que é ruim, desabafo.

Quem é seu amigo não te trata como uma pessoa qualquer. Ele tem, para com você, uma atitude diferente e exclusiva chamada respeito. Não é o respeito formal, que devemos aos chefes, juízes e policiais (sob pena de demissão, coça ou cadeia), nem o respeito proveniente da admiração, que reservamos aos nossos ídolos. O amigo nos respeita pelo que a gente é – e isso inclui, pasmem, nossos defeitos.

Nenhum gênero de cinema classifica tão bem a noção que tenho de amizade quanto o Western. No filme Apaloosa, um banqueiro, incomodado com as atitudes do xerife contratado por ele e seus amigos endinheirados da cidade, pergunta para o amigo do xerife, numa tentativa de minar o relacionamento dos dois:

— Eddie anda muito violento. ..Você não acha que ele está errado?

A resposta:

— O Eddie é o Eddie.

É como eu penso. Amigo é amigo. E se você não entende essa definição, está na hora de encontrar um amigo de verdade.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Enfático

Se o seu professor de Português foi bom, se você anda estudando pra concurso ou se você é meio esquisito e lê a gramática de vez em quando porque acha legal, deve lembrar-se do que é a função fática da linguagem. Se não lembra, eu explico: é quando a linguagem não serve pra nada, quando não comunica chongas, quando está presente apenas para abrir caminho pra comunicação de verdade. É a ante-sala do discurso, a entrada do banquete lingual, a preliminar da cópula comunicacional, o lubrificante para a introdução da mensagem, a... OK, chega, né? Por que será que minhas metáforas sempre acabam em sexo?

Vou dar até um exemplo que hoje estou de bons humores. O "oi, como vai?". Normalmente não estamos interessados em como a pessoa vai quando falamos isso. A frase serve apenas como introdução ao que queremos realmente dizer. Ninguém são chega falando imediatamente o que quer sem nenhum tipo de intróito. Socialmente, é importante que estabeleçamos contato antes de emitir a mensagem. Já pensou se você encontra um colega na rua que pára na sua frente e diz, simplesmente:

- Estou morando agora na 309 norte, meu telefone é 3325 55 63.

E vai embora sem dizer mais nada. Ninguém faz isso, certo? Bom, conheci um cara que fazia, mas ele também tinha a coleção completa de discos do Menudo. Enfim.

Então o como vai, o até logo, o tá quente hoje, o choveu e o hã-hã é tudo linguagem fática. Ou seja, utilizar a função fática de vez em quando, no começo e no final de sentenças é algo escandalosamente normal. E deixa implícita uma boa educação e um bom senso.

Porém, quando a pessoa te pergunta uma coisa e você responde outra, isso também pode ser considerado linguagem fática porque, afinal, não faz o menor sentido. Também é comum, mas bem menos desejável. Quando o discurso inteiro é fático, a pessoa é louca, distraída ou mal-intencionada.

Mas por que estou falando disso? Simples, porque hoje acordei com a impressão de que vivemos em um país fático, com um presidente fático, repleto de governantes fáticos. Mas deve ser só impressão.

Tchau.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Realidade alternativa

A primeira vez que bati os olhos no Big Brother decidi que era contra qualquer reality show. Depois, com o tempo, vi que eu era somente contra a degradação do ser humano para o divertimento dos outros e que, pelo mesmo motivo, nunca fui muito fã de show de calouros, Cidade Alerta e outros programas do tipo. Essa é a minha opinião atual sobre alguns realities, que pode mudar antes mesmo d'eu terminar de escrever.

Um aviso: tenho muitos amigos que adoram reality shows e isso não é uma crítica pessoal a vocês. Primeiro porque sou completamente idiossincrático e não tenho nada contra quem assiste. Segundo, porque o que escrevo a seguir é só minha opinião, que provavelmente está errada. Mas acho que não custa à gente refletir um pouco sobre o nosso entretenimento de vez em quando.

1. Big Brother – acho terrível. O programa não tem nenhuma contribuição cultural ou social (a não ser para o vencedor – e mesmo assim questionável). É um voyeurismo alugado e, embora as pessoas ali se disponham a isso, o fazem mais por conta do nosso culto ao sucesso que por qualquer outra coisa. Acho triste ter a audiência que tem, embora entenda seu apelo.

2. O Aprendiz – pra mim, é ainda pior que o Big Brother, porque usa a desculpa de um pseudo-profissionalismo para humilhar ainda mais as pessoas que participam. Sim, no mercado existem chefes babacas, mas não são todos e, nem de longe, os mais perigosos. Quem está ali para satisfazer o ego do Trump e do Justus não vai aprender nenhuma lição profissional importante – a não ser agüentar calado tudo o que seu superior te diz. Tá, essa é uma lição importante, mas você entendeu o que eu quis dizer. A versão com celebridades é um pouco melhor, já que elas estão, ao menos, acostumadas com a exposição na mídia (e os caras são mais engraçados), mas não vou bloquear minha agenda pra assistir, não.

3. Extreme make-over – a série começou com mudanças radicais na aparência de pessoas o que, a princípio (e em princípio), sou a favor, mas o sensacionalismo barato e a insistência em um modelo de beleza padrão, diminuía o valor social da produção em 20 (numa escala de zero a dez). Aí alguém teve a sensacional idéia de fazer um make-over em residências de pessoas necessitadas. Botaram um produtor de primeira, uma equipe envolvida, competente e engraçada e o programa é emocionante, interessante e tem como produto final uma benesse inacreditável para uma família. O Luciano Huck copiou e eu nunca vi a cópia, que me parece um pouco mais apelativa, mas ainda assim vale. O benefício final compensa. Gosto muito, já assisti e me emocionei.

4. Queer Eye for The Straight Guy – Os gays que ajudam um cara hetero a ficar menos brega e na moda (sair das cavernas) são divertidos e bem reais. O programa elimina preconceitos e diverte. É meio repetitivo, mas assisti de vez em quando e gostei.

5. Miami Ink – Estranho. A idéia é vender que tatuagem é arte e que cara tatuado não é necessariamente um bandido violento. Funciona até certo ponto, porque mostra toda uma cultura de um ponto de vista diferente. Mas, honestamente, é mais uma curiosidade que qualquer outra coisa. Assista uma vez e nunca mais. Mas imagino que possa ter uma identificação com outro público.

6. Os vários de carro e moto – Também montados em função de um nicho de público (maior que os dos tatuados) e também copiados pelo Luciano Huck. As cenas de novela, que mostram as discussões entre os especialistas são dispensáveis em minha humilde opinião, mas sei que tem gente que assiste justamente por isso. Poderiam ser mais focados nos carros pois são interessantes o suficiente pra isso.

7. Nerds e Patricinhas – Foi um dos momentos mais impressionantes da TV em minha opinião. Apelação total e, apesar disso, estranhamente cativante pelo enorme respeito que os participantes mostraram uns pelos outros. O apresentador tentou criar conflito o tempo todo, mas os nerds faziam questão de parabenizar os competidores e elogiar a beleza das meninas e, as meninas, genuinamente impressionadas com a inteligência dos nerds, também eram estranhamente simpáticas. Freak total – só é bom porque deu errado – fiquei com a impressão que os produtores queriam uma dinâmica diferente para o programa, mas a galera era muito tranqüila pra baixaria.

8. American Idol – A parte de seleção, embora eventualmente divertida, é um verdadeiro show de horrores e de humilhação. Não gosto e me incomoda, embora, confesso, ache muito engraçado algumas figuras que aparecem. A parte de exibição é muito legal. Os cantores têm um nível muito alto, os arranjos são muitas vezes bem bolados e os comentários do Randy são excelentes. Até o mau-humor do Simon é engraçado (não tanto quanto ele próprio acha, mas...). Poderia ficar sem a parte da novelinha e o tom sentimentalista ao extremo dos vídeos pessoais. Os vídeos dos ensaios são ótimos. Gosto. As cópias nacionais foram abaixo da média – menos qualidade musical e muito mais drama barato. Achei horríveis.

9. Top Model – Americana ou brasileira, tanto faz. Legal para as meninas – é uma oportunidade. Bem de nicho e um pouco exagerado (como todos os outros), mas me parece até mais profissional que os outros similares. As dicas e as tarefas são bem vinculadas ao universo da moda, mas poderíamos viver sem. Eu, pelo menos, poderia. Se bem que eu assistiria se tirassem a novelinha (as discussões, as fofocas, as cenas na "casa". Inclusive todos esses reality shows seriam melhores se não tivessem "casa" nenhuma, se fosse cada um pro seu canto depois das filmagens. Dentro dessa dinâmica o Big Brother, que só tem a "casa", acabaria. Lucro).

10. Os de cozinha – Poderia dizer que era mais um programa para público específico, mas não serei tão bondoso. O aspecto culinário é completamente secundário e os programas são todos embasados no mau-humor de um mestre-cuca ou de uma banca de jurados. Os prêmios são ótimos para quem participa, mas, assim como O Aprendiz, existem principalmente para inflar o ego de determinadas pessoas. Acho isso de baixo nível e desnecessário. O programa valoriza qualidades como arrogância, agressividade, falta de respeito, oportunismo (que é diferente de senso de oportunidade) e ganância (os mesmos princípios do Aprendiz). Nos de tatuagem e de carro o sonho e a qualidade profissional têm mais evidência. Nesse, os participantes são tratados como um bando de imbecis que estão tendo a honra de beijar os pés de um gostosão da mídia. Escroto.

11. Garota FX – um pretexto absurdo para objetificar as mulheres. As moças gostosas ficam à disposição de três juízes machistas que criam as provas mais humilhantes possíveis. A idéia é exibir o corpo das mulheres e mergulhar em diálogos fúteis e piadas machistas de terceira categoria. É o fundo do poço. Não perco um.

12. Os de encontros e casamentos – Me retifico. O fim do poço é aqui. Tem até um bem específico pra achar uma garota roqueira para o Brent Michaels. Terrível. O da Garota FX é escandalosamente machista e sabe disso. Trata-se de uma piada (infelizmente, as meninas que participam não sabem disso e levam a sério o negócio – o que é a nota deprimente do programa). O do Brent Michaels é machista e doente. Esses outros programas usam a solidão e a angústia humana como combustível. Acho triste e absolutamente aviltante.

13. Os de animais – Me retifico. O fim do poço é aqui. Cãobelereiros poderia até dar um documentário divertido, mas reality show não dá. Desespero de quem produz e de quem assiste.

14. E tem mais: os de salão de beleza, de swingers, de estrelas do mundo pornô, de sobrevivência na selva (tem um doido que pula de pára-quedas no meio da África e tem que sair de lá só com uma mochila), o que acompanha um navio do Green Peace (que quer afundar os baleeiros japoneses), um de uma velha (o qual não quis nem saber do que se tratava) , o das babás (também copiado no Brasil e até útil, mas não precisava de formato de reality show), mas esses estão abaixo do fundo do poço.

Mas, só para constar, acho todos eles melhores que o Big Brother, que está em primeiro na lista só por ser o mais famoso e por ser o responsável por todo esse absurdo televisivo. Detalhe: sou a favor do entretenimento de baixo valor cultural, pois, na hora de se divertir, às vezes é legal não pensar em nada mesmo, mas sou contra entretenimento de valor cultural negativo, no qual enquadro o Big Brother, o Teletubies e o Galvão Bueno.

sábado, 18 de abril de 2009

Lista

Tem duas coisas que eu queria fazer tem um tempo. Primeiro, uma lista. Pô, qualquer blog mequetrefe tem uma lista! E, segundo, falar sobre quadrinhos porque me pediram há uma data e eu tô só enrolando. Na hora já me veio a idéia: as dez mulheres mais gostosas dos quadrinhos! É óbvio, é machista, é sexista – é perfeito! Mas minha esposa começou a falar que o blog andava tão bom, tinha até poesia, que isso é coisa de nerd tarado, que o nível ia despencar... Tá bom! Tá bom! Eu, hein!

- Vou fazer então uma lista das dez mulheres mais bem-resolvidas e modernosas dos quadrinhos, pode ser?

- Aí pode.

- Com comentários do Sr. Babaquinha. Pode ser?

- Tudo bem... Hã? O quê? Peraí! Quem é o Sr. Babaquinha?

Tarde demais. Agora já falou que pode! Segue a lista então, moçada, em ordem decrescente. E aos onanistas de plantão: não se preocupem, são todas gostosas. Comentários de bom-gosto cortesia do Sr. Babaquinha (Babaca era o pai dele).

10. Brandy

Ela é inteligente, bonita, competente e de uma inocência hipnotizante. Ela exerce um silencioso domínio sobre todos os personagens masculinos de Liberty Meadows, incluindo os animais. Ela é de certa forma, o estereótipo da mulher perfeita levada ao extremo, com uma pitada de sadismo. Todos a desejam, mas ninguém pode tê-la. Ela nunca é indiferente, mas nunca entende nem aceita as cantadas. Sempre disponível, mas nunca alcançável. A vida é dura, mermão, a vida é dura.

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Eu tomava até banho antes.



9. Mulher-Hulk

Uma das primeiras profissionais liberais do mundo dos quadrinhos (e põe liberal nisso), a Srta. Walters, prima do gigante verde maluco da Marvel ganhou, graças a uma transfusão de sangue, os poderes do Hulk, mas manteve o seu intelecto preservado. Advogada de sucesso, dona de um bom-humor a toda prova e de um apetite sexual compatível com o seu tamanho, a Mulher-Hulk vai, onde quer, se veste como quer, faz o que quer e come quem ela quer (entre eles, o Luke Cage e o Homem-Lobo).

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Ela é um espetáculo, mas eu não namoraria. Uma empolgadinha que ela der e eu posso acabar esquartejado. E a mulherada sempre se empolga comigo.

8. Susan Richards

Casada e superfiel ao marido, alguém poderia dizer que ela faz o modelito dona-de-casa. E esse alguém não poderia estar mais errado. Susan é a pessoa razoável que mantém o Quarteto Fantástico unido, dona de um senso prático que o maridão cientista alienado não tem e de uma personalidade imponente e marcante. Não é à toa que o Namor, príncipe submarino e o personagem mais convencido da história dos quadrinhos, arrasta uma barbatana por ela.

Foi a primeira super-heroína a ter filhos, é supermegahipermilionária, pode ficar invisível, tem um marido que pode deixar qualquer parte do corpo do tamanho que ela quiser e mesmo já tendo virado a curva dos trinta tá podendo usar roupa coladinha sem problema. Tá dando pra sentir a inveja da mulherada daqui de casa.

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Sou doido por essa aí. Madura, segura de si e o marido é um bunda-mole (hahaha! Pegou? Homem-borracha, bunda-mole... Pegou? Cara, eu sou muito engraçado). Ainda tem o fetiche de poder fazer sexo em público com ela deixando os dois invisíveis – eu faria em cima da mesa do Lula!

7. Ultra (no meio)

Pearl vive em um mundo onde as mulheres são objetificadas, a mídia controla a opinião pública e o sucesso é medido pelo dinheiro que você tem. Ou seja, o nosso. Seu alterego é a super-heroína Ultra, que recebe salário de uma megacorporação para combater o crime e é obrigada por contrato a andar com roupas coladas e minúsculas que ficam entrando na bunda. O sucesso na carreira de super-heroína tem seu preço: sua vida amorosa é uma zona e ela é constantemente vítima dos tablóides. Alternando momentos de depressão com euforia, o maior sonho de Ultra é ser uma pessoa comum. Não consigo imaginar nada mais moderno que o modelo da mulher bem-sucedida deprê.

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: De jeito nenhum! Já viu o filme Minha Super Ex-namorada?

6. Michone

A primeira vez que essa mulher aparece em The Walking Dead, o pensamento que passa pela sua cabeça é: ê sapatão braba (nada contra, mas também não vou mentir). Mas os personagens de Kirkman nunca são o que parecem e Michone prova ser não apenas hetero, mas que é tão quente na cama quanto fria na hora de matar... bem, qualquer um que se meta com ela.

Numa terra invadida pelos zumbis onde todo mundo anda armado até os dentes, ela anda só com uma espada (às vezes duas) e ninguém, eu disse ninguém, é mais escroto que ela. Deixa eu ser bem claro: se tem alguém que pode fazer o Chuck Norris travar o toba é a Michone. Leia The Walking Dead, é um favor que você faz a você mesmo.

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Por mim, eu não encarava, mas se ela vier pra cima de mim não sou nem louco de dizer não.

5. Lucy in the Sky

Karolina é uma adolescente lésbica que, depois de matar os próprios pais (ei, os caras eram mais malvados que a Odete Roitman), descobre que era alienígena e se casa com um príncipe skrull. Sim, aquela raça que pode se transformar em qualquer coisa – e em qualquer um. No caso, qualquer uma. Independente, bem-humorada e com a vida toda ainda pela frente, é uma das personagens mais sedutoras do excelente quadrinho Runaways.

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Di menor nem pensar, né?



4. Red Sonja

Depois de ser violentada e brutalizada, uma deusa vingativa concede a Sonja uma habilidade sobrenatural com a espada. A pegadinha – ela só poderá se deitar com o homem que conseguir vencê-la em um duelo. Pra ela tudo bem, ela não tá nem aí pra machaiada mesmo.

Tá, confesso que ela está muito mais pra peituda homicida que pra exemplo de mulher moderna bem-resolvida. Mas não dá pra deixar uma mulher dessas de fora da lista, dá? Não dá.

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Ia ter que vencer ela em batalha primeiro e o único tipo de espada que eu consigo levantar não ajuda em nada numa briga.

4 (de verdade) Botei a Sonja aí no meio só pra ver se passa batido. Speedy

A tradução do nome para o português foi infeliz: Ricardita, mas Rapidinha também não ia ficar lá essas coisas. Mas pra você ver como essa menina tem personalidade, nem o nome besta e nem a aids (sim, ela tem aids) a impediram de entrar para Os Novos Titãs e de conseguir ser treinada pelo ranzinza Arqueiro Verde. Com um passado complicado (que envolve drogas e prostituição), Mia Dearden (seu verdadeiro nome) não se deixa abater e tem sempre uma resposta na ponta da língua - mesmo quando não perguntam nada a ela!

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Outra di menor? Segue.


3. Francine (à esquerda) e Katchoo (ao centro - o cabeludo da direita chama-se David e é um milionário simpático e bocó)

Uma é cheinha e insegura, a outra é bissexual e foi garota de programa de alto nível. No universo de Strangers in Paradise, os estereótipos caem por terra e diálogos inteligentes são mais comuns que moedas de dez centavos. Os conflitos emocionais das histórias são bem reais e as personagens são cativantes e inspiradoras.


Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Juntas ou separadas?

2. Jessica Jones

Na página cinco da sua HQ de estréia, a Jessica Jones já estava protagonizando a primeira cena de sexo anal do universo Marvel. A ousadia da moça é algo fenomenal. Tirando os quadrinhos especificamente eróticos, nunca vi alusão a sexo anal em qualquer outro quadrinho americano. Eu não precisaria dizer mais nada, mas vamos lá:

Ela tem superpoderes, mas desistiu desse negócio de vestir roupas coloridas porque, cá entre nós, é de uma bichice sem tamanho.Tem sua própria agência de investigação, perde a paciência por qualquer dois centavos, teve uma filha com Luke Cage (sim, o mesmo que pegou a Mulher-Hulk), tem celulite, pinta o cabelo, de vez em quando enche a cara, tem dificuldades de se expressar verbalmente, mas tem uma ótima intuição e é charmosa, mas muito charmosa mesmo. Michael Bendis realmente se superou na criação do personagem.

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: Hm... Sexo anal... Hã? Falou comigo? Distraí total!

1. Marzikeen

Sabe os Lilins? Uma raça de demônios tão barra pesada que foram expulsos até do inferno? Pois é, ela é a chefe deles. Ela já entrou em guerra contra as manifestações físicas da psique humana (e ganhou!), beijou Lúcifer na boca e matou um Deus oriental. Ah, sim, e o marido dela era um figura que conseguia ler os pensamentos de Deus! E ela deu um pé na bunda do cara, sem cerimônia. Não tem mulher mais independente, confiante e fodona que ela, que, além de tudo, é supereducada e raramente levanta a voz.

Tá... Ela é um pouquinho assustadora, mas ninguém é perfeito, né?

Índice de degustação do Sr. Babaquinha: ...cê tá maluco? Não me compromete, rapaz, não me compromete.


Vejam vocês que a nossa primeira colocada espantou até o Sr. Babaquinha, que é um adolescente com os hormônios mais destemperados que hambúrguer do McDonalds. Ou seja, está comprovado que mulheres bem-sucedidas, confiantes e bonitas intimidam os homens. Mas só nos quadrinhos, na vida real é bem diferente. Ou não é?

Eu prometeria subir o nível nos próximos posts, mas eu estaria mentindo.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Númeno

Estava o nomarca, à noite, no seu nomarcado quando o nômade nomante, sem ser nomeado, abriu sua nômina, de onde tirou uma nominata novinha, novinha.

Deitou o noitibó a enumerar os nomes nobiliários, sem nuance nem norma. Lá pelo noningentésimo, notou o nababo nonarca que nada naquilo era normal. Chamou, naturalmente, o noologista e o nosologista. E, por neurose, o numismata, o necromante, o normando, o noctâmbulo, o nominalista, o nudípede e Nunes, o nudista.

Nutridos do nuto do nonarca, noticiaram os nove ao nóxio nômade que seu destino era o nosotômio.

- Nunca! - E, não sem nocividade, nocauteou os nove notáveis.

E, num nanossegundo, notou uma nau ao norte, num naco nadível do Nilo. E nela navegou. E mais nada.

Veia

O médico, muito culto e antenado com as vicissitudes do português (a língua, não o de bigodes), deixou o bilhete para a enfermeira: não se esqueça da injeção na veia da veia.

Perguntou a enfermeira, via MSN: na veia da veia de quem?

Da veia, respondeu o médico, muito ligado na simbologia moderna, acrescentando dois pontos e a letra d maiúscula após a frase.

A enfermeira, mais simplória, não respondeu nada, mas, em pensamento, mandou o médico tomar bem no meio do cu várias e várias vezes seguidas. E algumas outras mais intermitentes.

E a velha morreu porque não tomou a injeção.

Patos

Temos patos. Todos nós, feliz ou infelizmente. Levamos nossos patos pra cima e para baixo, espremendo seus pescoços nos sovacos e encaixados entre as coxas. Culpa dos gregos. Herdamos deles os patos e, com os patos, a apatia, a simpatia e a empatia, uma pataiada só. Ou então eu não entendi direito a aula de lingüística.

Insistência

Que a noite não se aborreça,

Não durma, não esqueça.

Que a noite não se lamente,

Não perca num repente

Tudo que a define noite


 

Que a noite não tenha sono,

Não se chateie, não durma,

Não pisque, não se disfarce,

Que a noite não se desfaça

Antes que o Sol renasça.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Interpretação

- Que carta é essa aí?

- Hm... Saiu a morte!

- A morte? Como assim, a morte? Tá dizendo aí no baralho que eu vou morrer?

- Que nada! A morte significa morte para uma coisa, renascimento pra outra – é uma carta de transformação.

- Ou eu morro ou viro gay, é isso?

- Deixa de ser besta. Existem milhões de transformações possíveis na vida. Vamos continuar.

- Essa aí, qual é?

- O tolo.

- Tolo? O baralho agora tá me chamando de idiota, é?

- Não, ele está confirmando que você passará por um momento de renovação. Tá vendo essa sacolinha que ele carrega?

- Sei.

- Nela tem tudo o que você precisa para concretizar uma mudança, para realizar um sonho ou cumprir um objetivo.

- Nessa matulinha aí?

- Na matulinha.

- E o cachorro?

- Ah, sim! O cachorro está te alertando para que você pare e se prepare para a sua jornada. Para que você não esqueça de abrir a sacola e usar do seu conteúdo. Caso contrário, você estará sendo realmente um tolo.

- É só isso, então? Abrir a sacola e vida nova? Devo me preparar para uma mudança de vida?

- Ou isso ou você é um bobalhão que vai morrer daqui a pouco – disse a falsa cigana, com um sorriso maldoso, enquanto seu cúmplice se aproximava do turista pelas costas, de faca em punho, para concluir o assalto.


 

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O homem eterno

Nas cercanias dos cinquenta anos de idade, pouco mais, pouco menos, por gentileza, distração ou praga, parou de envelhecer.

Isso foi há tanto tempo atrás que, pra se contar nos dedos, precisaríamos de duzentas e cinqüenta pessoas. Ele deixou de adoecer e seus cabelos e suas unhas não cresciam mais. Mas comia e defecava (embora não engordasse nem sofresse mais de câimbras intestinais) e dormia (embora mal) e podia ser machucado (tanto metafórica quanto fisicamente). Por tudo isso, era ainda humano. Um humano que não morria de causas naturais, mas que ainda poderia ser atropelado ou ser vítima de assassínio, que ainda podia amar e ter o coração partido, trair e ser traído.

E tudo isso ele fez: amou, traiu, sofreu, sorriu e chorou. Mais do que qualquer um de nós – mais vezes e mais intensamente! Estava liberto da decadência do corpo, mas não dos vícios da alma. De sobre-humana, apenas a memória, que se adaptou à sua situação ímpar e jamais se cansava de registrar tudo. Cada lágrima, cada abraço, cada gozo, cada coisa.

Fez foi assombrar-se com a pergunta que lhe fiz, certa noite chuvosa e deprimente, na qual de todo o seu corpo parecia emanar tristeza, o peso dos séculos sobre as pálpebras e sobre os ombros:

- Nunca pensou em se matar? – perguntei, repleto de simpatias e boas intenções. Ele já havia passado por tudo, já havia experimentado tudo, já foi considerado gênio e idiota, já havia sido abraçado e repelido, beijado e ignorado, já havia sido rico e sido pobre. Que mais a vida lhe poderia oferecer?

- Não – respondeu o homem com um tímido sorriso. – Afinal, a vida já é curta o suficiente.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

... de Assis

O que eu queria falar sobre o Machado de Assis era o seguinte: esbarrei em um artigo que dizia que o escritor tinha apenas visão parcial e me deu vontade de rir. Explico-me: não sou sádico nem insano, mas é que já ouvi falar tanta coisa de Machado de Assis que essa última me pareceu exagero. O homem era mulato, gago, epilético e agora quase cego? Se continuar nesse ritmo ele vai virar o Stephen Hawkins da literatura. Daqui a pouco ele está paraplégico, banguela e sifilítico.

Pode até ser que fosse mesmo, mas e daí? É como se a genialidade dele precisasse ser justificada de alguma forma, como se, para ser brilhante, o cara tivesse que ser absolutamente diferente dos outros também fisicamente. Como quem dá importância a esse tipo de coisa são os intelectuais, imagino que eles estão procurando isentar-se da responsabilidade de serem, eles mesmos, também geniais. Como posso ser genial se o máximo que eu tenho é sapinho? Se não fui abandonado pela minha esposa e nem tenho credores batendo na minha porta? Cadê o meu câncer e minha hanseníase? Parece brincadeira, mas o que não falta são histórias tristes de pessoas geniais e não sei se concordo que a vida de todo mundo que é inteligente precisa ser miserável.

Primeiro porque todo mundo sofre, inclusive os idiotas. Mas parece que a norma é valorizar o sofrimento de quem se deu bem, para valorizar ainda mais a conquista. Não precisa! Se o cara é multimilionário ou conseguiu dividir o átomo em dois ele não precisa ser ainda mais valorizado. Ele não precisa virar herói, ícone ou exemplo de superação. Exemplo de superação é quem consegue criar sete filhos na Favela do Vidigal sem ter concluído o primário!

Temos a mania de construir heróis sem necessidade. Vejam as histórias dos Santos católicos, por exemplo. Se pra conseguir fazer milagre tem que sofrer desse jeito, não, muito obrigado. Mas isso é outra história e eu divago, divago. E, pra ser honesto, a igreja moderna têm ressaltado o lado amável e mais alto-astral dos santos (mas não esqueçamos que boa parte desse culto ao sofrimento é herança católica).

Mas, voltando à vaca fria*, é bem possível que alguém que pense muito diferente passe por momentos de depressão e isolamento porque, afinal, os outros não compartilham sua visão das coisas, mas precisamos parar com essa história de valorizar o sofrimento, seja para justificar a genialidade, seja para criar novos mitos, seja porque vende revista, seja porque dá audiência. O sofrimento não redime ninguém, ele é só isso: sofrimento. Trazer alegria aos outros, isso sim, é digno de ser valorizado.


*A vaca fria é uma verdadeira instituição dos lugares comuns do vernáculo popular. Está aqui iniciada uma campanha pela volta da vaca fria – essa expressão é ótima!