| Itália: luz indireta, filtro de luz e contra-luz. |
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| Buttman: vamos fimar na praia que tem luz natural! |
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É duro, eu sei, mas a verdade é que somos um bando de frouxos. Jamais existiria um piloto kamikaze ou um samurai ocidental. Queremos curtir a vida, ganhar dinheiro e fazer um churrasquinho com os amigos no final de semana.
Honra é um conceito meio nebuloso por aqui. Consideramos burrice assumir a responsabilidade por algo que fizemos, pagar o que devemos ou defender alguém injustiçado (não temos nada a ver com isso, certo?). Obedecemos à lei quando nos é conveniente, consideramos o trabalho braçal e de casa como uma coisa menor e medimos, sim, os outros pelas roupas que vestem ou os carros que dirigem.
Alguém muito cara-de-pau poderia falar que isso não é exclusividade ocidental e eu até concordaria. Afinal, com a globalização, estamos exportando nossa covardia junto com o McDonald's, criando um planeta de pusilânimes imediatistas.
Nossa memória fraca e o hábito de fingir que não é com a gente é um prato cheio para políticos que, no final do ano, estarão comemorando às nossas custas todo o dinheiro que vamos dar a eles durante os próximos quatro anos. A não ser, é claro, que consigamos botar alguém honesto e corajoso lá em cima. Bom, se aqui embaixo for todo mundo honesto e corajoso também, é fácil.
Mas eu puxei esse assunto porque na noite passada vi um filme que me chamou a atenção: Red Justice, com o Richard Gere. Você já deve ter visto também. É um no qual ele é acusado injustamente de matar a filha de um general chinês e é julgado pelo sistema jurídico da China, que é longe de ser justo. Tem uma cena, completamente fantasiosa, na qual ele, seguro na embaixada dos estados Unidos, decide sair para enfrentar um julgamento armado só para não prejudicar sua advogada, que seria responsabilizada por sua fuga.
Fiquei pensando: alguém faria isso na vida real? Eu conheço alguém capaz de fazer um sacrifício enorme apenas para evitar o sofrimento de um conhecido? Resposta honesta? Não sei. Esse é o tipo de pessoa que se revela apenas quando a situação exige e, infelizmente, nas situações mais cabeludas que presenciei até hoje, o que mais vi foi gente abandonando o navio (inclusive alguns capitães).
Enfim, entre morrer com a sensação de dever cumprido ou botar o rabo entre as pernas pra lutar outro dia, qual seria a escolha mais inteligente?
As pessoas vivem falando que precisam de mais tempo, mas isso é porque as pessoas falam as coisas sem pensar: pois quanto mais tempo a gente tem, mais velho a gente fica. O que a gente quer mesmo é distância do tempo. Quer que ele pare, que ele volte. Queremos gastar o tempo que temos com coisas mais interessantes que ler relatórios ou sofrer por um amor perdido. Não quero ganhar, quero é perder tempo!
Dou um exemplo: achei que a solução para voltar a escrever com mais freqüência no blog era arrumar um tempinho a mais. Não estava conseguindo, então decidi usar menos tempo do que eu estava acostumado. Voltei a escrever, falei um monte de coisas que estava a fim de dizer e até sobrou tempo. Quer pra você?
Vou falar logo agora que é para não me acusarem de estar imbuído do espírito natalino: estou otimista em relação ao ano que vem. Não estou me esfregando na parede nem andando aos pulinhos como o Lula, já em campanha para 2014, mas estou otimista. Um otimismo desconfiado, mas otimista.
Curiosamente, não tenho nenhuma razão em particular para estar otimista. Trata-se de um otimismo sincero, baseado em xongas e completamente inconseqüente. Um otimismo puro, sem diluentes ou conservantes – e olha que será ano de eleição!
Mas isso tem uma explicação muito simples. Só não sei qual é.
Esse blog começou com textos de humor. Humor questionável, possivelmente, mas humor. Humor barato, certamente, mas humor. De lá pra cá, todo tipo de escrevinhadura deu as caras por aqui: poesia, haikai, crítica, crônica, narrativa, boletim, mexerico, reflexão e por aí vai, mas o humor ficou mais intermitente, caprichoso, irresoluto. Compreensível, diria o amadorista, pois o texto é reflexo do espírito e varia com a vida. Bobagem! Embora todo o texto seja uma verdade, o verdadeiro escritor é um mentiroso: escreve coisas tristes quando está alegre e pode ser divertidíssimo quando está triste. A inconstância na escrita não é uma atribulação da alma, mas é, preparem-se para uma verdade desnuda, uma afetação da mente. Para o cérebro inquieto e efervescente não há dificuldade alguma em lapidar o texto. Para a cabeça enterrada na areia do cotidiano, o texto vai para onde é possível no momento – e vai decerto aos tropeções com a elegância do bebum e a graciosidade do perneta.
Felizmente, para tudo há concerto, especialmente quando se tem consciência do problema. Para tornar o humor mais freqüente nessas paragens basta meter estímulos na mente do Escritor, à força, se necessário, com jeitinho, de preferência. Sendo o Escritor um amigo próximo (tão próximo quanto possível, uma vez que se trata de mim próprio), a tarefa me parece das mais brandas. Bem sei que as aparências enganam e a experiência prévia mostra que o estilo do Escritor é costumeiramente evasivo e volúvel, dado mais à experimentação que à constância, mas sejamos pragmáticos: o humor é ferramenta preferida do Escritor e não tenham dúvida de que muito pouco será necessário para que a intenção de fazer rir volte a ser uma prioridade.
Contudo desconfio, cá entre nós, que nunca deixou de ser, pois o humor tem muitas qualidades (negro, sutil, mordaz, irônico, despropositado). Hm... Talvez seja o caso de reler alguns dos textos com outros olhos antes de propor mudanças desnecessárias.
Você já fez a coisa certa?
Não o que esperam que você faça, não "o melhor dentro das circunstâncias", mas a coisa certa. Não estou falando de uma boa ação e nem uma doação pra Igreja – estou falando de fazer o que é justo, mesmo que isso exponha você de alguma forma ou seja a maneira mais complicada de resolver uma situação.
Não é fácil fazer a coisa certa porque não é qualquer um que pode fazê-la, pois, pra fazer a coisa certa você precisa de certo grau de poder. Precisa ser um juiz, um pai, um chefe, precisa ter a capacidade de tomar uma decisão que pode afetar a vida dos outros. Pra fazer a coisa certa, você precisa ter o poder de fazer a coisa errada.
Você precisa tomar uma atitude inesperada, precisa não ceder a pressões, precisa rever seus valores, precisa ter compaixão e precisa se colocar no lugar de outras pessoas. Dito assim ,parece que fazer a coisa certa é algo extremamente complicado ou difícil e, no entanto, fazer a coisa certa na prática é algo muito simples e direto.
Na vida, existem apenas quatro tipos de decisões que podemos tomar: a que nos beneficia, a que nós achamos que nos beneficia, a que prejudica os outros (mesmo que depois nos beneficie) e a que só beneficia os outros (podendo ou não nos prejudicar). Pense nisso antes de tomar qualquer decisão e veja onde ela se encaixa. Se você fizer essa pequena reflexão de forma honesta e sincera, você fará a coisa certa. E nunca se esqueça de que não fazer nada também é uma decisão.
Minha filha participou da Candanguinha, a corrida para crianças promovida pelo Correio Braziliense que começou como Marotinha e mudou de nome sei lá por que.
Orgulho de pai à parte (ou incluso, como queiram), acho a idéia de celebrar o esporte e a saúde no Dia das Crianças muito bacana, mas a organização do evento não foi lá essas coisas, não. Especialmente na formação das filas para a competição. A falta de esclarecimento quanto aos horários das competições gerou alguns tumultos e empurrões, coisa normal em show de rock, mas que tem que ser evitado a todo custo em eventos onde muitos pais estão aglomerados, pois o pai que protege o filho em multidões é um animal perigoso e completamente irracional. Quem já levou o filho a uma chegada de Papai Noel sabe do que estou falando.
Mas a verdade é que a coisa toda transcorreu sem maiores transtornos e o saldo foi positivo, mas duas coisas me chamaram a atenção. Na verdade, foi uma coisa só: a natureza humana, que, mais uma vez, se provou desprezível em dois episódios.
No primeiro, corriqueiro, mas não menos impressionante para um observador atento, assustou-me a pressão dos pais sobre seus filhos. Alguns meninos tinham claramente passado por um regime duro de treinamento e tinham uma lista enorme de instruções a serem cumpridas na corrida:
- Se o boné cair, não pare pra pegar!
- Levante bem os joelhos para ter mais impulsão na passada.
- Não olhe para o papai – concentre-se na corrida.
- Olha o sprint final!
- Posicione-se bem na largada.. etc.
Devo confessar que também dei lá minhas instruções para minha filha, algumas bem parecidas com as daí de cima, mas em um clima de descontração e ressaltando que o importante era participar e dar o melhor de si. Não deixa de ser cobrança e acho que pai tem que cobrar mesmo, mas até certo ponto. Porque o certo é cobrar, mas sem deixar de apoiar, estimular, incentivar e compreender, senão a maionese desanda. Algumas crianças estavam extraordinariamente tensas com todo o processo e os pais do lado de fora, mais tensos ainda, de olho na performance do filho.
O segundo episódio que me impressionou é derivado dessa cobrança e do tipo de discurso que o pai faz para um filho antes de uma competição como essa. Em uma das corridas, o menino que estava à frente claramente "fechou" por duas vezes o segundo colocado, que se viu obrigado a reduzir a velocidade para evitar que os dois fossem ao chão. Por conta disso, não conseguiu a ultrapassagem e o garoto de atitude antidesportiva chegou em primeiro.
Tem gente (e aí incluo, aceitando o risco de errar, o pai desse menino) que acha que isso é ser "esperto", que a vida é assim mesmo, que pra ganhar vale qualquer coisa. Eu acho um absurdo e me entristece terrivelmente ver tamanha falta de caráter em um menino de nove anos. O menino não foi desclassificado por causa do ambiente informal da corrida, mas a atitude dele foi motivo de comentário geral entre os presentes. Alguns positivos, outros negativos.
Os maiores defensores desse tipo de atitude são os que minimizam o fato: "Se ele tivesse empurrado o outro seria errado, mas ele só deu um passo pro lado, não foi nada demais". Morro de medo dessas pessoas – as que acham que uma coisa errada é medida pelo ato e não pelas conseqüências.
Embora seja um bom começo, ter caráter não é apenas assumir a responsabilidade pelos próprios atos, mas, sim, assumir a responsabilidade pelo impacto dos nossos atos na vida dos outros.
Mas talvez, assim como os pais "treinadores", eu esteja exigindo demais da humanidade...
Uma vez me disseram que "respeito é algo que precisa ser conquistado". Na hora, fiquei calado. Não porque não tivesse uma boa resposta (o que acontece com freqüência com todo o mundo), mas porque a pessoa já não estava mais muito a fim de ouvir o que eu tinha a dizer (o que, infelizmente, parece ser mais freqüente ainda, especialmente entre políticos e governantes). Mas a frase é infeliz.
Se eu fosse levá-la ao pé da letra, eu poderia simplesmente passar a mão na bunda da primeira moça que visse na rua. Ela não fez nada pra conquistar meu respeito e, portanto, não o merece: passo a mão na bunda e ainda chamo de gorda (mesmo que não seja, só pra provocar)!
Respeito ou a gente tem ou não tem. É claro que podemos perder o respeito por alguém que, aí sim, faça por merecer, mas, em tese, é primeiro preciso respeitar. Ou sou eu que estou falando um absurdo? Tomara que não!
Tim Schaffer é o criador, ou co-criador, de grandes clássicos dos jogos de aventura para computador e, em alguns casos, consoles. Da sua mente genial saíram obras-primas como Monkey Island, Full Throttle, Grim Fandango e Psichonauts. Seu senso de humor refinado e a caracterização brilhante dos personagens são sua marca registrada. Mas, curiosamente, com exceção de Psichonauts, Schaffer não é dono de nada do que criou. A LucasArts tem os direitos dos títulos e pode fazer o que bem entender com eles sem lhe dar satisfação. Mas, mais curiosamente ainda, eles não fazem. Schaffer e os outros criadores de Monkey Island participaram como consultores de todos os outros títulos da série e essa atitude da LucasArts tem um nome: chama-se consideração.
Uma consideração que fica ainda maior se adicionarmos que Schaffer saiu brigado da empresa. Claro que nem tudo são rosas e, mais de uma vez, surgiram boatos de que a LucasArts faria uma continuação de Full Throttle sem a participação de Schaffer. Mas, por enquanto, são boatos.
Stan Lee também não é dono de nada do que criou (Homem-Aranha, Thor, Homem de Ferro, Quarteto Fantástico, Hulk, só pra citar alguns), nunca foi. Mas está na folha de pagamento da Marvel até hoje - e como presidente (mesmo sem precisar aparecer pra trabalhar), ganha royalties sobre os filmes (ele nunca exigiu, foi uma cortesia), é consultor criativo de seus personagens e sempre faz uma ponta em todos os filmes de seus heróis. Isso se chama respeito.
Já o Darlan, brasiliense criador do Zé Gotinha, teve o personagem tirado de suas mãos por conta de uma tecnicalidade legal e, pra completar, o Zé Gotinha foi explorado por anos sem que se desse crédito, dinheiro ou um agradecimento ao seu criador. E, só recentemente, Siegel e Schuster, os criadores do Superman, foram devidamente recompensados pelo seu trabalho. Isso se chama sacanagem.
Normalmente, quem não respeita o valor de uma criação é aquele que nunca criou, porque não entende o processo. Ou quem é frustrado, que cria apenas coisas medíocres e precisa se apoiar na criação dos outros. Hoje em dia, a legislação protege até mesmo a criação de agências de publicidade, que são contratadas para criar algo de finalidade comercial – nenhum cliente pode usar indefinidamente o material publicitário; é preciso pagar novamente para a reutilização de uma idéia.
Mas o criador solitário, aquele que trabalha dentro das engrenagens da empresa, esse continua desprotegido. A lei tem brechas para que ele vá lutar pelo que é seu de direito, mas o custo é alto (financeiro e emocional) e as garantias são poucas. E, se ele vencer, será também uma vitória solitária, pois ele ficará com o produto de sua criação, mas sem condições de distribuí-lo, ninguém conhecerá o produto.
É uma balança delicada, pois a empresa tem plenos direitos de explorar aquilo que foi contratado (embora o que exatamente tenha sido contratado seja muitas vezes nebuloso) e nenhuma obrigação de ter consideração ou respeito pelo funcionário ou prestador de serviço – essas duas últimas coisas continuam dependendo largamente do caráter das pessoas que têm o controle da situação.
Já me vi dos dois lados da moeda: tem gente que até hoje me pede autorização para utilizar coisas que criei (mesmo sem precisar) e tem gente que acredita que eu não fiz mais que minha obrigação e altera, muda e utiliza minhas idéias sem me dar a menor satisfação (e talvez até precisassem).
É um terreno pantanoso, cheio de altos e baixos legais e morais, mas que pode ser muito facilmente atravessado com um pouco de respeito. O problema é que tem muita gente por aí que já não tem mais a menor idéia do que seja isso, como você vai ver na próxima crônica.
Se você acha que está fazendo a coisa certa, será que você pode fazer qualquer coisa? Essa foi uma das questões levantadas pelo episódio de hoje de House. O que seria pior: fazer a coisa errada com as intenções certas ou a coisa certa com intenções erradas?
Se quiserem saber minha opinião – e parto do princípio que vocês querem ou não estariam lendo isso aqui – a intenção é uma mentira que ainda não foi contada. Trata-se de uma fantasia, uma farsa. Ela não incrimina, nem absolve porque existe apenas na nossa cabeça. Então, faça sempre a coisa certa, independentemente de intenção.
Vou dar um exemplo intencionalmente hipotético: certa vez enfiaram-me uma faca nas costas, ataram-me a um cavalo e arrastaram o corpo em praça pública. Se você perguntar aos envolvidos, dirão que não era uma faca, que não foi bem nas costas, que não se lembram do cavalo e que a praça, se é que era uma praça, não era pública. Mas, enfim, depois do acontecido, o melhor que puderam fazer foi dizer que não tinham intenção. Um deles, porém – e apenas um de um grupo de, digamos, mais de um - depois de alegar a tal desintenção, desamarrou-me, comprou-me uma caixa de band-aids, deu um beijinho pra sarar e passou lá em casa no dia seguinte para ver como eu estava. Claro que eu o recebi com pedradas e músicas da Kelly Key. Isso não o impediu de, de vez em quando, mandar cartõezinhos de melhora. Durante dois anos! Com bombons! Da kopenhagen!
O que posso dizer? O cara provou que ou estava muito afins de mim ou arrependido (que é outra coisa que não existe sem a ação, sem uma atitude), ele teve a coragem de sair do maravilhoso mundo das intenções. Ganhou meu respeito.
Mas o serumano gosta de valorizar aquilo que não tem valor, como o Domingão do Faustão e a revista Caras. E valoriza tanto as intenções que, para alguns, é preciso, além de primeiras intenções, ter ainda segundas! Políticos, por exemplo, estabelecem toda uma carreira vendendo suas intenções e, apesar de suas atitudes cada vez mais duvidosas, muitos deles vão muito bem, obrigado.
E a prova definitiva de que a intenção e nada podiam muito bem ser sinônimos é que, quando comecei a escrever essa crônica, meu intento era falar de outra coisa completamente diferente.
Você sabe que está entre amigos quando você pode mandar alguém ir tomar no cu sem maiores conseqüências. O máximo que vai acontecer é você ouvir um "vai você" bem-humorado ou, no caso de um "vá se foder" mais sincero, um convite pra botar tudo em pratos limpos.
Entre amigos você pode rir e chorar sem constrangimentos. Pode soltar pum. Pode dormir bêbado no sofá. Pode contar vantagem. Pode até, em casos extremos, trocar tapas. Entre amigos, tudo o que é bom é sincero e tudo que é ruim, desabafo.
Quem é seu amigo não te trata como uma pessoa qualquer. Ele tem, para com você, uma atitude diferente e exclusiva chamada respeito. Não é o respeito formal, que devemos aos chefes, juízes e policiais (sob pena de demissão, coça ou cadeia), nem o respeito proveniente da admiração, que reservamos aos nossos ídolos. O amigo nos respeita pelo que a gente é – e isso inclui, pasmem, nossos defeitos.
Nenhum gênero de cinema classifica tão bem a noção que tenho de amizade quanto o Western. No filme Apaloosa, um banqueiro, incomodado com as atitudes do xerife contratado por ele e seus amigos endinheirados da cidade, pergunta para o amigo do xerife, numa tentativa de minar o relacionamento dos dois:
— Eddie anda muito violento. ..Você não acha que ele está errado?
A resposta:
— O Eddie é o Eddie.
É como eu penso. Amigo é amigo. E se você não entende essa definição, está na hora de encontrar um amigo de verdade.
Estava o nomarca, à noite, no seu nomarcado quando o nômade nomante, sem ser nomeado, abriu sua nômina, de onde tirou uma nominata novinha, novinha.
Deitou o noitibó a enumerar os nomes nobiliários, sem nuance nem norma. Lá pelo noningentésimo, notou o nababo nonarca que nada naquilo era normal. Chamou, naturalmente, o noologista e o nosologista. E, por neurose, o numismata, o necromante, o normando, o noctâmbulo, o nominalista, o nudípede e Nunes, o nudista.
Nutridos do nuto do nonarca, noticiaram os nove ao nóxio nômade que seu destino era o nosotômio.
- Nunca! - E, não sem nocividade, nocauteou os nove notáveis.
E, num nanossegundo, notou uma nau ao norte, num naco nadível do Nilo. E nela navegou. E mais nada.
Temos patos. Todos nós, feliz ou infelizmente. Levamos nossos patos pra cima e para baixo, espremendo seus pescoços nos sovacos e encaixados entre as coxas. Culpa dos gregos. Herdamos deles os patos e, com os patos, a apatia, a simpatia e a empatia, uma pataiada só. Ou então eu não entendi direito a aula de lingüística.
Que a noite não se aborreça,
Não durma, não esqueça.
Que a noite não se lamente,
Não perca num repente
Tudo que a define noite
Que a noite não tenha sono,
Não se chateie, não durma,
Não pisque, não se disfarce,
Que a noite não se desfaça
Antes que o Sol renasça.
Um dia desses... Mais precisamente, dia 6 de abril de 1.988... O quê? Tenho culpa se minha memória é boa? Enfim, um dia desses ouvi um comentário que me chamou a atenção. Era uma aula de história e o tema era escravatura: os índios brasileiros eram preguiçosos e indisciplinados; eles não se adaptaram à escravidão.
Vinte anos depois, não sei se por maturidade cultural ou falta do que fazer, me peguei pensando: mas alguém se adapta à escravidão? Alguém se acostuma a ser sacaneado? Os africanos eram mais aptos à escravidão? Mandavam currículo, por acaso? Faziam psicotécnico?
É claro que alguém que recebe uma paulada na cabeça todo dia pode não revidar, por falta de coragem, oportunidade ou alternativa. Mas isso não significa que a pessoa goste, que esteja adaptada! Provavelmente, quanto menor o revide, maior será o sentimento de vingança, revolta e angústia. Mais: havia um tom meio pejorativo na fala do professor (sim, eu me lembro do tom pejorativo), como se fosse demérito do índio ser mais indolente quanto à escravidão. Pô! Não tá vendo o negão aqui dando um duro danado? Ele também tá na mesma situação que você e não reclama! Não reclamava provavelmente porque não sabia falar português e porque, se fugisse, ia voltar pra casa como? A nado? Sem contar que o que teve de revolta negra não foi bolinho, mostrando que adaptados à situação estavam só mesmo os senhores de engenho e sua curriola agregada.
Em minha opinião, o sacaneado tem direito à revolta, à indisciplina e à inconformidade. Já o sacaneante (ou sacaneador, como queiram, já que as duas palavras não existem) não deve nem fazer bico, nem se sentir injustiçado. E que vá para a Casa do C*%*&ho aquele que resolve julgar o sacaneado, índio ou qualquer outro, pela sua reação e não pelo que foi feito com ele.
Rapaz, foi bom desabafar! Faz vinte anos que eu tava com esse troço por aqui, ó. Por aqui!
Boas justificativas nem sempre precedem boas atitudes. Não se preocupe que você não vai precisar tirar conclusões sobre essa frase assim num repente. Vou dar um exemplo e, ao final, ainda pretendo concluir meu raciocínio. Aproveite que não é todo dia que me esforço para ser coerente.
Em 1950, os Estados Unidos e a União Soviética ensaiavam os primeiros passos da guerra fria que se estenderia por anos a fio. Os dois países faziam parte do Conselho de Segurança da ONU, mas, como a relação já andava azeda e os objetivos dos EUA já divergiam dos objetivos soviéticos, a União Soviética parou de freqüentar as reuniões do Conselho de Segurança.
Ora, todas as decisões do Conselho precisavam ser unânimes e o boicote soviético implicou o congelamento das pautas. Coube aos diplomatas americanos, devidamente assessorados por bons advogados, a missão de reinterpretar o Estatuto da ONU para fazer as coisas andarem novamente. Eles descobriram que, por conta de uma redação vaga, as pautas poderiam, na verdade, ser aprovadas por consenso. Ou seja, a unanimidade dos presentes. Assim, eles não precisariam da União Soviética. Bastava, para isso, uma releitura do estatuto.
O argumento americano foi sólido: não temos condições de esperar a União Soviética. O Conselho de Segurança é um órgão importante das Nações Unidas e não pode se dar ao luxo de simplesmente se congelar no tempo e no espaço. A ação rápida e incisiva sempre foi característica marcante do Conselho e isso é o que diferencia a ONU daquela outra tentativa fracassada de instituição internacional chamada Liga das Nações. E tem mais: não estamos fazendo nada de errado, pois não estamos reescrevendo o estatuto, estamos apenas reinterpretando o que já está lá.
Nobre. Correto. Pró-ativo. Criativo. Praticamente inevitável, dadas as circunstâncias. A Assembléia Geral da ONU deu o sinal verde.
E os Estados Unidos aproveitou-se da situação pra, sem a interferência soviética, aprovar a invasão da Coréia por tropas militares americanas*.
Foi a primeira de muitas situações na qual o governo americano encheu-se de boas justificativas para fazer algo injustificável. Ou, melhor, algo que só se justifica do ponto de vista dos interesses políticos e econômicos norte-americanos. E toda a turma que assina embaixo da justificativa normalmente tem o hábito de continuar assinando embaixo das cagadas subsequentes - agora sem o trema (o subsequente e não as cagadas)!
O que acontece na política internacional é reflexo da natureza humana. Os governantes mentem e são dissimulados porque o ser humano mente e é dissimulado. Os governantes são brilhantes porque o ser humano tem a capacidade de ser brilhante. E os indivíduos também têm interesses políticos e econômicos. Por isso, fica o alerta: cuidado com as pessoas cujas justificativas (ou intenções) são sempre melhores que suas atitudes.
* Essa história tem mais detalhes, que omiti propositadamente, senão o Ninguém Perguntou acaba tendo algum tipo de valor educativo. Se quiser cultura, vá ler um livro.
300 anos de escravidão explicam muita coisa. Explicam, por exemplo, porque o brasileiro desvaloriza tanto o trabalho, já que o mesmo foi sinônimo de esforço ininterrupto para o enriquecimento dos outros. Explica porque o brasileiro valoriza tanto a hierarquia pois os senhores de engenho e de terras da época eram soberanos e todos deviam obediência a eles (todos, menos a Coroa portuguesa*, claro. Existe sempre um cachorro maior...). "Você sabe com quem está falando?" é uma frase que quase todo brasileiro já ouviu e, secretamente, adoraria poder dizer.
No resto do mundo, trabalha-se para enriquecer. No Brasil, a gente quer enriquecer pra parar de trabalhar.
Muita coisa mudou, mas o trabalho ainda é largamente desvalorizado. Um adolescente de classe média não considera ainda digno ganhar uns trocados lavando louças em um restaurante ou cuidando dos filhos dos outros, como é comum no Canadá, Austrália e Estados unidos. Além disso, precisamos de leis trabalhistas duras, complexas e em excesso para garantir o bom andamento das coisas e evitar a exploração da mão-de-obra. Mas crianças ainda participam do mercado informal e empresas de médio e pequeno porte têm até medo de contratar por conta dos impostos e obrigações.
Quem trabalha ainda é escravo hoje em dia. Não porque não receba dinheiro, mas pela falta de opções. Ainda é muito raro encontrar alguém recebendo um salário honesto fazendo aquilo que gosta. O funcionalismo público parece ser a única saída para a classe média, que deveria passar a se chamar classe medíocre, pois a cada dia que passa fica menos crítica, menos ousada e menos influente. E mais desejosa de trabalhar no TCU mesmo que tenha feito vestibular para bioquímica.
Eu exagero, claro. E, além disso o atual estado das coisas no Brasil não pode ser completamente explicado pelos 300 anos de escravidão. Eles deixaram sua marca e alguns grilhões sociais parecem ainda estar em pleno funcionamento, mas, no fim, em uma boa parte das prisões, os detentos lá estão por conta de seus próprios atos.
* Não consigo usar essa expressão sem imaginar uma velha mal-encarada de bigodes fartos. Com você também é assim?