quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Vida Fácil

Você pode escrever sobre a vida com resultados bastante razoáveis (preciso escrever uma crônica sobre a palavra razoável, mas fica para a próxima) e sem muito esforço. Basta compará-la com qualquer outra coisa. Você não só pode escrever um texto como, muitas vezes, livros inteiros. E a técnica também é muito útil para produzir frases de efeito, que podem até ser consideradas inteligentes, dependendo da turma com a qual você anda.

Para exemplificar, vamos escolher um tema aleatório, como, hm, vacas! Não, vacas, não: surfe.

A vida é como o surfe: uma coisa aparentemente sem objetivo, que pode ser muito divertida e compensadora se você se dedicar a ela.

A vida é como uma prancha de surfe: não importa sua habilidade em conduzi-la, para conseguir bons resultados, você ainda vai depender da onda.

A vida é como o surfe: faz mais sentido quando se mora perto da praia.

Etc.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Internetes

Volta e meia recebo uns e-mails cuja autoria é, de forma muito suspeita, atribuída aos mais diversos indivíduos. Hoje mesmo recebi um que, supostamente, foi a resposta de uma menina de dezesseis anos a uma questão de prova que envolvia um poema de Camões. Já recebi o mesmo e-mail, com o mesmo texto que, salvo engano, referia-se a uma resposta a uma questão de vestibular que um garoto, blá, blá, blá.
Mesmo texto, autores diferentes.
Não tenho nada contra a mentira na literatura e nem na vida real. Acho que a mentira é o refúgio do homem comum e quem não consegue enganar a si mesmo normalmente não é muito feliz.
Me incomoda muito quem mente para prejudicar os outros ou quem mente para se beneficiar de forma ilícita ou anti-ética. Mas o fato é que as pessoas têm uma péssima relação com a verdade, pois ela é quase sempre chata e inconveniente.
E é por isso que adoramos a Internet. Ela nos mente o tempo todo. Todo mundo é nosso amigo, todo mundo quer sexo, todo mundo é inteligente, o mundo é um lugar divertido, grotesco e interessante.
E os e-mails continuam chegando, repletos de histórias reais que nunca aconteceram.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

A pessoa ao lado

Se neste momento você estiver sozinho lendo essa crônica, talvez seja melhor ir fazer outra coisa. Volte quando tiver alguém no seu raio de visão.
Muito bem, agora olhe bem para a pessoa ao seu lado, seja ela quem for, e se pergunte: você sabe do que ela é capaz?
Não falo de situações hipotéticas extremas, daquelas que só acontecem nos livros e no Rio de Janeiro. Coisas como assassinato, canibalismo, prender a respiração por vários minutos ou sobreviver a um ataque de zumbis. Nada disso. Falo de coisas mais simples que possam ser aplicadas em um passeio, em casa ou no trabalho.
Quantas palavras por minuto ela datilografa? Como ela se sai apresentando uma proposta para um grupo de empresários? Ela sabe trocar o pneu de um carro? Quantas posições do Kama Sutra ela já executou com sucesso? E essa pessoa sabe para que lado é o boroeste? (não falei que os conhecimentos precisavam ser úteis).
Você pode pedir o currículo do indivíduo, pode conversar com a mãe dele, pode morar com ele há quinze anos e não saber, na verdade, do que aquela pessoa é capaz.
Desconfio que não temos nem a medida certa do que nós mesmos podemos e conseguimos fazer. Eu, por exemplo, tenho quase certeza de que ainda consigo plantar bananeira, mas uma mistura de desânimo e bom senso me impedem de tentar.
E eu ia chegar a algum lugar interessante com esse texto, mas decidi parar por aqui. Tenho convicção de que vocês são capazes de chegar a alguma conclusão bem interessante por conta própria.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Placas

Antes de sair de férias eu tinha um caso com a Malu Mader. Nós não falávamos sobre o assunto, claro, pois nossos mundos são muito diferentes e, ora, ambos somos casados e amamos nossas esposas. Quer dizer, eu amo minha esposa e ela ama o marido.

A coisa começou há uns seis anos atrás. Eu demorei um tempo para perceber, mas depois de passar todos os dias pela mesma rua, voltando do trabalho, tudo ficou muito claro: do alto de seu outdoor do Café do Sítio, a Malu não tirava os olhos de mim. Todos os dias, sem falta, ela me encarava com suas sobrancelhas de taturana.

A partir daí, uma certa cumplicidade foi sendo construída. Nada de sexo, nada de encontros clandestinos em motéis cheios de baratas, nada de conversas telefônicas sussurradas no meio da noite. Apenas uma troca de olhares diária que queria dizer, simplesmente, "sim, eu te entendo". Não se tratava nem de amizade e nem de romance. Era algo mais misterioso, que só nós dois entendíamos.

Mesmo quando o outdoor mudou e o Toni Beloto foi incluído no cartaz, a Malu não tirava os olhos de mim. O maridão ali do lado, como um cão de guarda, mas a fidelidade da Malu não esmorecia, seus olhos compreensivos sempre me acompanhavam.

Quando voltei de viagem, contudo (e para minha surpresa), a Malu Mader não estava mais lá. Ou a campanha acabou ou descobriram o que andava acontecendo entre nós ou... Sei lá! O mundo é um lugar estranho e nem sempre podemos saber o que se passa pela cabeça das pessoas – especialmente as que estão representadas por uma foto de outdoor.

Mas sinto falta da Malu.

E, enquanto estamos no assunto das placas, uma outra apareceu enquanto eu estava fora, dessa vez na pista que leva ao meu trabalho. No caminho que faço todos os dias, quando chego a um determinado cruzamento, preciso virar à direita. Pois bem, apareceu uma placa que diz o seguinte: "Salvador" – e aponta para o caminho da esquerda.

Agora, todos os dias sou confrontado com a escolha entre ir trabalhar ou seguir para Salvador. Se um dia desses eu desaparecer sem avisar, não estranhem.