segunda-feira, 23 de junho de 2008

Põe aqui o seu pezinho

Como metade das pessoas que têm computador, eu também recebi o e-mail bizarro da velha gueixa com o pé completamente atrofiado e deformado. Com uma mistura de orgulho e tristeza, a senhora mostrava o estado pé, com os dedos dobrados, peito do pé estufado e, como último recurso, o tendão cortado. Tudo para conseguir calçar um sapato número, sei lá, 29? 28?

O sapato era pequeno, mas é o que menos importa nessa história. O que importa é o seguinte: até onde estamos dispostos a ir para sermos aceitos? No caso da senhora japonesa, ela suportou uma imensa violência física por conta de determinadas pressões culturais e sociais. Mais freqüentemente, nós nos submetemos a algumas violências psicológicas para subir na vida e para ser convidado para as festas.

Às vezes nem percebemos e, outras, levamos na brincadeira. São as demandas do chefe chato, o terno de segunda à quinta, o sorriso amarelo diante do desafeto que casou com sua melhor amiga, o aniversário da tia inconveniente. Pressões sociais e culturais que, pensamos, não significam nada e, afinal, precisam ser obedecidas, sob pena de ostracismo ou, pior, indiferença.

Mas quando vejo essas páginas pessoais do Orkut e afins, com gente tirando a roupa, declarando que faz sexo com plantas e exibindo sua vida pessoal de forma explícita, me pergunto se essa onda de mostrar as cicatrizes na Internet já não tem um tempo. É que algumas cicatrizes são mais visíveis que outras...

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Pro buraco

Por falar em pessimismo, nesse exato momento, em um túnel gigante embaixo de um lugar qualquer na Europa, tem um grupo de doidos com PhD acelerando partículas e mandando umas de encontro às outras em velocidade dez vezes superior à da luz. Eles fazem isso o dia inteiro e ficam lá, sentados, pra ver o que acontece.

Até aí, nada demais, pensa o desavisado. Melhor que assistir ao Big Brother deve ser.

O único problema é que o passatempo desses rapazes pode ter um pequeno efeito colateral: a criação de um buraco negro.

Sim, aquele mesmo tipo de buraco negro que, por ter um centro de gravidade imenso, arrasta galáxias inteiras para o seu interior. E podemos ter um na Europa. Veja bem que não é o risco de algo simples como uma explosão atômica, ou a destruição total do planeta Terra, mas o risco de criar uma coisa que pode aspirar toda a Via Láctea. Imagine se o Maradonna fosse viciado em corpos celestes. É isso: VUPT! E lá vamos nós pra dentro da narina do buraco negro.

O responsável pela brincadeira disse que, caso o buraco negro seja criado, ele será microscópico e instável e sobreviverá 0, 000...1 segundo (são dezesseis zeros). E, nesse tempo, ele não pode fazer um estrago muito grande. Talvez inale um átomo e dois e pronto.

Mas e se essa porra ficar estável, cidadão? E se não se desfizer?

Aí ele disse que a tendência é que o Buraco negro continue viajando em dez vezes a velocidade da luz e que só vai dar merda há alguns milhões de anos-luz daqui. Já estou até vendo os cabeçudos do planeta do E.T. putos da vida com a gente. Escreve o que estou dizendo que essa história vai acabar em invasão alienígena. Se alguém larga um buraco-negro na minha porta, pode ter certeza de que vou interpretar como um ato de guerra. Se os caras escaparem, vai dar rolo.

Mas e se essa porra trombar com um nêutron ou um quark, perder a velocidade e chegar, no máximo, em, sei lá, Luziânia?

Aí ele vai ser atraído pela gravidade da Terra.

Ah, certo. Podemos ter um buraco negro no centro da terra. Mas e aí?

Aí ele vai começar a sugar matéria.

Não poderia ser melhor. E aí?

Bom, eventualmente ele sugaria toda a Terra e a Via Láctea, mas isso demoraria uns seis bilhões de anos e a Terra só vai viver mais cinco bilhões, mesmo.

Então quer dizer que, se por um acaso a gente conseguir dar um jeito de evitar que o Sol se apague, não vai adiantar nada?

O cientista diria que, em primeiro lugar, é pouco provável que o buraco negro se forme e que, caso isso aconteça, é praticamente impossível que ele se aloje no centro da Terra. Praticamente impossível, Né?

Hnf... Foi o que disseram quando o Lula pensou em se candidatar à Presidência da República pela primeira vez.


 

O caminho

Sempre preguei o pessimismo e sempre fui um incompreendido. Pois bem, acabou de sair um estudo que prova que o verdadeiro caminho para a felicidade é o pessimismo.

O pensamento positivo e o otimismo ajudam você a conseguir seus objetivos, mas quando você chega lá, as coisas não são exatamente como você pensava, não é mesmo? Vem a decepção e certa depressão é inevitável antes que você chegue à conclusão de que o que você precisa mesmo é de outro objetivo. E mais outro, e outro, e outro...

Já o pessimista sabe exatamente sabe que as possibilidades do pior acontecer quando ele chegar lá são grandes. Então, qualquer coisa boa é lucro e vai ser encarada com deliciosa surpresa. E pronto: felicidade.

O otimista acha que tudo tem jeito e, quando assiste ao estupro de crianças e o espancamento do jovem que saiu da boate no telejornal, se vê sem argumento para justificar a vida, se deprime e se engana até se abraçar com uma nova ilusão.

O pessimista sabe que o mundo vai acabar e já desistiu da humanidade tem um tempo. Quando vê qualquer coisa agradável, não consegue segurar um sorriso, mesmo que seja cínico. Mas não se deixa enganar: seja lá o que for que viu, era apenas a exceção que confirma a regra.

Já o deprimido usa a visão do pessimista para justificar sua permanente tristeza que, na verdade, não tem motivo nenhum.

Sei que já é a décima vez que falo sobre isso aqui e provavelmente vocês já estão de saco cheio. É bem provável que ninguém goste dessa crônica e que eu acabe perdendo mais leitores por insistir no tema. Pelo menos, isso é o que eu acho que vai acontecer – mas provavelmente vai rolar algo pior ainda. Se não acontecer, é lucro.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Uma pequena Indiana Jones

Nesse ano, a minha maior surpresa com o Indiana Jones veio de uma fonte completamente inesperada: o jogo Indiana Jones Lego. Pra quem não acompanha o que rola no mundo dos videogames, a série Lego pega filmes e personagens famosos (Indiana Jones, Star Wars, Batman) e transforma em um jogo de aventura, tudo montado com os bloquinhos Lego.
Os jogos são muito bem feitos e é impressionante o resultado final, pois, além de tudo no cenário poder ser montado e desmontado (pois é tudo Lego), os desafios são interessantes e inteligentes. E mais um detalhe: o enredo é sempre uma versão bem-humorada e censura - livre dos filmes. Os bonequinhos não falam e vários elementos são traduzidos através da expressão corporal. Para mostrar que o Indiana Jones tem medo de cobra, por exemplo, o bonequinho cobre o rosto com as mãos e se treme todo quando chega perto de uma cobrinha Lego, que parece um cocôzinho vermelho.
Tudo muito simpático, mas talvez bonitinho e “clean” demais, para quem, como eu, prefere jogos como a Conspiração Bourne, no qual você pode pegar um lápis na mesa e enfiar no olho do seu adversário – se não fosse por um detalhe: Indiana Jones lego eu posso jogar com a minha filha!
Assim como meu pai dividiu sua paixão por cinema comigo usando o Indiana Jones, posso, com o mesmo personagem, dividir minha paixão por videogames com minha filha, que vibra com cada cena do joguinho e não pára de apertar os botões nem quando os cineminhas pré-gravados do jogo são disparados. Para ela, ela continua controlando a ação, fascinada com tudo que consegue fazer e montar.
Se não fosse pela Bia, eu jamais iria perceber o tanto que um jacaré de Lego pode ser assustador. Quando o personagem dela cai no rio de jacarés, ela grita, larga o controle e tampa os olhos, pedindo minha ajuda para passar de fase.
E ela comenta as ações, briga com os bonequinhos, coordena as estratégias mais engraçadas e imprevisíveis, se diverte atropelando o meu personagem (várias vezes seguidas) e levanta a mão para um “high five” toda vez que conseguimos, juntos, superar um obstáculo.
É como ser criança de novo – exatamente o que um filme do Indiana Jones se propõe a fazer.