quinta-feira, 25 de maio de 2006

Sexo e saúde

Acabei de ler uma reportagem em uma revista que deve ser muito séria, já que tinha uma artista da Globo na capa, que dizia o seguinte (a revista, não a artista): sexo é bom para a saúde.
Não foi a primeira vez que vi inferências a isso, mas a afirmação estava bastante categórica na matéria em questão. Além disso, ouvi falar que exercícios regulares são fundamentais para a manutenção do funcionamento do corpo. Acredito, contudo, que essas afirmações são falsas ou, ao menos, questionáveis. E, ao contrário do que costumo fazer, desta vez posso provar.
E as freiras?
Posso estar mal informado, mas não sei se os conventos andam equipados com academias de ginástica e musculação e, tudo bem que uma ou outra escorregue de vez em quando, mas sexo não é um elemento que faça parte da rotina da madre superiora.
E freira vive. Vive muito e vive feliz. Já fiz parte de movimento de jovens da Igreja católica e nunca me chamaram para enterro de freira. De padre, fui em dois. Freira nunca nem vi doente.
Não deve ser a roupa preta, pois nunca vi punk e dark velho. Talvez tenha algo a ver com a permanência em ambientes austeros e mal iluminados... Pode ser, já que bibliotecário também vive muito. Mas, em todo caso, não deve ser nem o exercício e muito menos o sexo.
Tudo bem - quem quer viver para sempre?

quinta-feira, 18 de maio de 2006

Aventura

06:45 – Pablo Marques acordou, fez seu alongamento matinal, tomou banho e preparou-se para ir ao trabalho com seu melhor amigo, Heitor Lobo. Mais um dia normal pela frente, pensou Pablo.

07:12 – O carro de Heitor passou a centímetros do caminhão de lixo. Pablo conferiu o velocímetro: 160 quilômetros por hora. Pegue a arma no porta-luvas, gritou Heitor enquanto desviava de uma senhora grávida – o carro já estava sobre a calçada. O veículo negro que os estava perseguindo parecia cada vez mais próximo.

08:20 – O vento frio quase derrubou Pablo do edifício. Estava no décimo-segundo andar e procurava desesperadamente uma maneira de voltar para o interior do prédio. Reunindo suas forças, quebrou uma janela com um poderoso chute, interrompendo uma sessão de fotos para uma revista masculina.

08:46 – A top model internacional Heidl Kim, vestindo apenas uma camiseta branca molhada e uma calcinha da Hello Kit, abraçou Pablo e, encarando-o com seus belíssimos olhos azuis, disse, sem hesitação: Confio em você. Então, segure-se, respondeu Pablo. E jogou-se do topo do arranha-céu. E se o pára-quedas roubado da loja esportiva na cobertura não funcionasse?

10:56 – A correnteza quase arrancou a bolsa com os diamantes da mão de Pablo. Com uma mão, agarrava-se firmemente a um tronco. Com a outra, segurava a bolsa. Heidl, com a camiseta cada vez mais molhada e mais transparente permanecia agarrada em seu pescoço. O crocodilo se aproximava lentamente.

12:05 – E agora? Qual seria a senha do computador de Heitor? Qual seria o envolvimento de seu amigo com o Culto das Três Serpentes e com a CUT? Olhou em volta em busca de uma pista. Lá fora, um tumulto – o corpo havia sido descoberto!

14:28 – Heidl, com um movimento rápido, arrancou a espada da parede e arremessou-a para Pablo, rasgando um pedaço de sua camiseta branca molhada. Pablo não estava mais indefeso, seus movimentos eram lentos e estudados, com a espada em punho, aproximava-se de seu adversário, que empunhava um florete. Heitor, diga onde está a bomba. A voz de Pablo era sombria e determinada.

16:32 – Ferido, exausto e com a visão embaçada, Pablo sentiu o suor escorrendo em sua testa. Naquele estado, jamais conseguiria acertar um alvo móvel a trezentos metros de distância. Mas o País precisava dele. Respirando fundo, ajeitou o rifle sobre o antebraço esquerdo e olhou novamente na mira telescópica. Lá estava Heitor, entrando na lancha e arrastando a pobre Heidl pelos cabelos.

17:01 – O helicóptero chocou-se com o hidroavião.

17:14 – Puxe o fio verde! Puxe o fio verde!, Heidl gritava, com a voz já anasalada, por causa de um resfriado (ela havia passado o dia inteiro com a blusa molhada). Mas Pablo lembrava-se muito bem de seu tempo como membro do Esquadrão de Elite Especial (o EEE) e sabia que dispositivos termonucleares resfriados com hidrogênio líquido e com timers analógicos não podiam ser desarmados de forma simples. Eles haviam chegado tarde demais, a bomba ia explodir. A não ser que...

18:00 – Pablo chega em casa e a esposa o recebe com mais um longo e caloroso beijo. O cheirinho agradável que emana da cozinha não deixa dúvidas: o jantar vai ser frango com açafrão.

Decifra-me ou te devoro

Assim como o livro, um certo mistério ronda o filme O Código da Vinci. De forma completamente pretensiosa, revelo, aqui, como será o filme antes de assisti-lo.

OS HERÓIS
O QUE PODE DAR CERTO: Tom Hanks. Carismático e bom ator (uma coisa nem sempre está junto da outra), ele tem tudo para ser o Robert Langdon que você sempre sonhou.
O QUE PODE DAR ERRADO: Sua coadjuvante é bonitinha e é francesa. Será que é mais que isso?
O QUE PROVAVELMENTE VAI ACONTECER: Tom Hanks vai carregar o resto do elenco nas costas. Não será brilhante, mas será o suficiente.

OS VILÕES
O QUE PODE DAR CERTO: O assassino albino é um personagem marcante. Pode roubar a cena.
O QUE PODE DAR ERRADO: No livro, todos os vilões são meio caricatos, como nos filmes de James Bond da década de setenta. Se o diretor não tomar cuidado, podem ficar meio ridículos.
O QUE PROVAVELMENTE VAI ACONTECER: Os vilões irão alternar bons e maus momentos, mas o gostinho do exagero ficará na sua boca quando sair do cinema.

A TRAMA
O QUE PODE DAR CERTO: A investigação é envolvente e o livro tem um bom ritmo, alternando cenas de ação com momentos de investigação.
O QUE PODE DAR ERRADO: Os produtores esquecerem que o forte de O Código da Vinci é a ficção científica (as ciências são, no caso, a simbologia e a história da arte). Se tentarem fazer um filme de ação, será formulaico e banal. Tirando a parte científica, a história do livro é cheia de clichês e é previsível. Outro risco é o dos produtores acharem necessário mudar um pouco a trama, já que o livro é muito conhecido – se isso acontecer, será um desastre.
O QUE PROVAVELMENTE VAI ACONTECER: Não vai dar para entrar nos detalhes filosóficos e históricos essenciais ao tom de veracidade da trama e as cenas de ação vão ocupar um espaço maior que o necessário. Quem não leu o livro vai ficar sem entender porque um negócio tão absurdo e obviamente mentiroso deu calafrios na igreja.

A PARTE TÉCNICA
O QUE PODE DAR CERTO: Praticamente tudo. Som, fotografia, trilha, montagem. Vai ser um show.
O QUE PODE DAR ERRADO: Quase nada, mas vai faltar criatividade. Seria mais legal ver um Brian de Palma ou um Quentin Tarantino na direção.
O QUE PROVAVELMENTE VAI ACONTECER: Tomadas grandiosas e vários closes do rosto do Tom Hanks fazendo cara de inteligente se alternarão. O clima geral vai ser bem agradável.

O RESULTADO FINAL
O QUE PODE DAR CERTO: O filme vai arrebentar nas bilheterias, podendo até mesmo ganhar algum prêmio técnico no Oscar. Você vai sair do cinema satisfeito e vai adorar comentar com os amigos as inconsistências da trama.
O QUE PODE DAR ERRADO: Os católicos podem perder a paciência e sair no meio. A bilheteria ser boa, mas nem tanto e pouca gente vai comprar a edição especial em DVD que sairá no Natal.
O QUE PROVAVELMENTE VAI ACONTECER: O filme vai ser muito parecido com National Treasure, do Nicholas Cage, só que ambientado em Paris e com temas religiosos. As argumentações mais consistentes do livro não serão bem traduzidas para a tela e a fragilidade da história ficará mais evidente. Mas você vai assistir e não vai achar que jogou dinheiro fora. Daqui a dois anos será cogitada uma continuação, baseada no livro Anjos e Demônios, mas é possível que Tom Hanks não aceite reprisar o papel.

Ervas daninhas no jardim

Por motivos de força maior só fui assistir ao Jardineiro Fiel agora. Achei o filme chatíssimo.
História boa, uma fotografia meio década de setenta (competente, mas não era o que eu esperava), atuações comportadas e flashbacks desnecessários (que contam o que você já deduziu e só contribuem para a lentidão da narrativa). Este talvez seja o primeiro caso que presencio no qual o livro é mais dinâmico que o filme. No livro, o suspense se sustenta. No filme, o suspense aparece e vai embora sem se despedir.
É duro falar mal do filme do Fernando Meireles, principalmente depois de Cidade de Deus, que é um dos melhores filmes que já assisti. Não um dos melhores filmes nacionais – um dos melhores filmes e ponto. Divertido, dinâmico, ousado, crítico, brilhante. Obra-prima. Não é o caso do Jardineiro Fiel.
Para ser honesto, o tema é ácido e atual e os ares de documentário tentam mostrar uma África chocante (como é mesmo), mas ficou faltando alguma coisa. Sir Richard Atemborough mostrou uma África bem mais intrigante e emocionante em Um Grito de Liberdade. Hotel Ruanda, filme mais contemporâneo, também foi mais contundente.
O filme não é uma porcaria, que fique bem claro, mas não é muito divertido. Meio lento, meio previsível. Não chorei, não ri, não fiquei puto e avancei uns pedaços no controle. Dispensável.
Mas como é possível um filme assim ganhar tantos prêmios?
A resposta é muito simples. O que está escrito aí em cima é a minha opinião e minha opinião não vale lá grandes coisas. Mas podem existir outras explicações: Meireles está no embalo, respeitado pelos atores, respeitado pela crítica e parece ser um cara carismático à beça. Além disso, estamos vivendo uma certa euforia com o cinema nacional, algo parecido com o que acontece no futebol. Não interessa se o gol foi de barriga, o importante é que a bola entrou. E não podemos esquecer que esse povo que freqüenta festival de cinema é meio esquisito e tem uns gostos duvidosos – eu não deixaria minha filha andar com eles.
Contudo, essa crítica não estaria completa sem uma confissão: tenho uma paixão declarada pelo entretenimento. Na minha estante, ao lado da Ilíada (em verso) está o Manual do Sexo Manual do Casseta e Planeta – e o livro do Casseta está bem mais usado.
Faça o seguinte: construa uma lista mental dos seus cinqüenta filmes preferidos. Se não tiver nenhum do Schwarzenegger, vá ver o filme.