segunda-feira, 12 de maio de 2008

Prazer

Ter prazer em determinadas coisas não é tarefa simples.
Vinhos, por exemplo. Qualquer um pode ficar bêbado ou simplesmente gastar dinheiro em um vinho caro, mas apreciar um bom vinho é algo que só pode ser feito depois de treinar o paladar e o olfato. Depois de entender o básico sobre as uvas, sobre safras e sobre regiões de procedência. Chegará um momento que, antes mesmo de beber o vinho, você será capaz de saborear o momento: desde a compra até a última gota da garrafa.
Ler uma história do Planetary, do Warren Ellis, é outro exemplo. Se você pegar a revista na banca, desavisadamente, vai provavelmente achar a trama curiosa e levemente interessante, mas, para verdadeiramente apreciar esse gibi, você precisa ter um bom conhecimento sobre os últimos 40 anos da história dos quadrinhos, ou não vai “pegar” as referências e os subtextos.
E existem muitos outros exemplos. Ninguém consegue ler Guimarães Rosa sem antes ter esquentado os neurônios com outros autores, sem ter um conhecimento ao menos intermediário de literatura. Ou consegue, mas não tem prazer.
Note que não estou falando de entretenimento, mas de deleite. Não estou falando de uma risada fácil, mas de um bom-humor duradouro. De uma experiência a ser lembrada com nostalgia e olhos umedecidos.
Recentemente, comprei um X-Box 360 e tenho investido muito tempo nele. Estou aprendendo os nuances e conhecendo as idiossincrasias do console. Até ontem, estava só me divertindo a beça, mas, finalmente, ontem à noite, depois de certo investimento de tempo e esforço, tive um verdadeiro momento de prazer ao chegar ao final do jogo Mass Effect.
Isso significa que as atualizações do site devem melhorar, pois o videogame já não está mais me tomando tanto tempo. A não ser que lancem outro jogo no qual eu posso controlar as ações de uma lésbica gostosa, estrábica, comandante de uma nave espacial, especialista em rifles de assalto, que é obrigada a matar o melhor amigo pra salvar o universo.
Ah... Bons momentos...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

O Bode

Você conhece a história.

Um grupo de publicitários está reunido e o desespero e o caos se instalam na sala. Os deadlines estão chegando, as idéias não vêm, o computador deu pau (e era um Mac!) e nada parece dar certo. O que eles fazem?

Alguém põe um bode na sala.

Claro que a situação piora. Nada foi resolvido e agora eles ainda têm que lidar com o bode comendo os leiautes e fedendo horrivelmente.

Durante um tempo, as pessoas vão tentar se comportar como se o bode não estivesse lá. Ninguém falará do bode (pelo menos não na frente do bode), tentarão tratar o bode como um igual e até rirão das suas piadas. Mas uma hora o fedor vai ser maior que a boa vontade de todos.

A solução clássica para esse problema é tirar o bode, mas eu não concordo com ela.

Claro, isso causará um alívio imediato e, de repente, tudo parecerá bem de novo... Mas não vai estar. Seja lá o que foi que causou o caos inicial ainda estará entre eles. A solução de tirar o bode pressupõe que a culpa da incompetência momentânea do grupo é do bode quando, muito provavelmente, é de quem sugeriu botar o bode na sala.

Essa pessoa claramente não tem nenhuma competência administrativa, visão estratégica ou espírito de equipe. Mas o bode tira a atenção do grupo. De repente, o problema é o bode. É o bode expiatório – literalmente.

O ideal é se livrar de quem trouxe o bode, mas a questão é que, quem normalmente põe o bode na sala, é a única pessoa que pode fazer isso sem ser chamada de louca ou inconseqüente. É a única pessoa que tem o poder de entrar com um bode no prédio sem ser barrada na portaria: o chefe.

O bode não tem chance. E olha que ele tinha umas idéias ótimas!


 

Quebrando a Banca

O filme Quebrando a Banca é exatamente como o truque de contar as cartas de sua própria história: simples, mas poucas pessoas conseguem fazê-lo.

A primeira pista que você tem de que o filme vai ser no mínimo interessante é logo no travelling inicial da câmera, que começa como qualquer cena aérea de abertura de filme americano e termina num close do rosto do protagonista, sem cortes. Tudo isso enquanto o menino atravessa uma ponte de bicicleta e sem dar uma dica de que é um efeito especial.

A história é previsível e a trilha sonora é uma oportunidade perdida, mas Lawrence Fishbourne e Kevin Spacey nem precisam se esforçar para ficar bem em papéis que são a cara deles.

O menino que faz o geniozinho convence e sua namorada é um colírio para os olhos. E o filme é passado em Las Vegas!

Assista.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Terrorismo

— Se eu te contar uma coisa, cê promete que não vai me achar maluca?

— Prometo – respondeu o Tavinho, obviamente, mentindo.

— Eu sou louca com esse negócio de terrorista.

— Hã? Como assim?

— Terrorista. Aqueles caras irados que se explodem com o avião e tudo. Talibã, essas coisas.

— O que é terrorista eu sei. Mas não entendi essa sua confissão aí. Você gosta de terrorista? Acha legal o que eles fazem?

— Não tem nada a ver com ideologia deles. E nem com as mortes, detesto morte. Mas é com a coisa de ser terrorista, entende? Eu tenho uma coisa com terrorista. Essa piração toda das dez mil virgens e de treinar no videogame pra pilotar o avião e engolir a arma pra passar no raio-X.

— Engolir a arma? E quem é que engole arma, Malu?

— Não é uma uzi, né Otávio! Mas aquelas pequenininhas do 007 dá pra comer. Eles comem com gelatina que é pra proteger o estômago.

— Onde você viu isso, Malu?

— Ah, num programa desses aí. Eu vejo tudo de terrorista. Irã, Iraque, Arábia, Moscou, tudo. Não posso ver um figura de nariz grande e aquela cara de mau que já fico toda interessada.

— Que é isso, Malu?

— Inclusive, tenho que admitir: só me liguei em você porque você tem uma cara de homem-bomba...

— Eu?

— Véio, eu morro de tesão por homem-bomba. É uma coisa na palavra, sei lá. Ho-mem-bom-ba. Olha, fiquei toda arrepiada.

— Homem-bomba?

— Ai! Fala de novo...

— Falar o quê? Homem-bomba?

— Isso. Vem me fazer explodir, meu homem-bomba, vem. Vem...

— Malu, não to muito no clima. Esse tema é muito barra pesada...

— Eu já não vesti de enfermeira pra você?

— Já, mas não é a mesma coisa...

— Otávio, você pára de frescura. Vem você e o seu nariz pra cama agora, senão eu ponho fogo na sua coleção da Playboy!

— Pô, Malu, que terrorismo é esse?

— Ai, Tavinho... Assim você me deixa louca!