segunda-feira, 17 de abril de 2006

Decepções avulsas

Quase chorei vendo o William Bonner conversando com o astronauta na televisão. Não foi de emoção, foi de tristeza. Estava lá a Globo tentando transformar em glória o nosso mico de dez milhões de dólares, o astronauta que, como na fábula, usa o pé de feijão para chegar ao céu. Pode-se dizer que a situação do programa espacial brasileiro não era muito diferente da do Joãozinho que, desesperado e sem alternativa, troca a vaca pelo pé de feijão. No nosso caso, trocamos dez milhões de dólares pelo direito de ir plantar feijão no espaço, mas existem duas diferenças importantes.
A primeira é que o governo de um país não pode pensar como uma criança de dez anos de idade e a segunda é que eu já não acredito mais em fábulas. Para mim, o governo brasileiro mandou para o espaço, junto com o astronauta, mais um pouco da sua credibilidade.

Popular

Há alguns anos atrás, se me perguntassem onde eu preferiria passar as férias, Disney ou Paris, teria respondido, sem pestanejar: Disney!
Hoje, tenho minhas dúvidas. Mas, principalmente, porque já conheci Paris e percebi que se trata de uma cidade ímpar, um lugar que precisamos conhecer nessa nossa excursão pela vida. Não tinha essa noção antes. Mas continuo interessado na Disney. Não pelo Mickey, mas pelas montanhas-russas e atrações em massa. Pelos brinquedos dos estúdios de cinema, pelo universo pop.
Gosto dessas coisas. Dos seriados enlatados (Seinfield, CSI e 24), das produções Hollywoodianas, do Tom Clancy, de Coca-Cola (light) e, meu Deus, do American Idol. Não gosto de ópera, do Guimarães Rosa e nem do cinema iraniano. Assumo que é uma limitação. Não entendo o que os gordos gritam nas óperas, não tenho certeza se o que o Guimarães Rosa escreve é português e o cinema iraniano... Bem, o cinema iraniano eu entendo – só acho chato mesmo.
Mas tem outra coisa que eu não entendo.
Dia desses aluguei o filme Carga Explosiva 2 e chamei a família toda para ver. Morreram de rir e ficaram comentando as cenas depois, mas, se alguém perguntar, vão dizer que o filme é uma merda. Mentiroso, vazio e fútil. O filme só pretendia ser divertido e todos se divertiram (não podem negar - eu estava lá). Contudo, para todos os efeitos, o filme é uma merda. É o preconceito contra o pop, contra o entretenimento pelo entretenimento.
Bobagem. É preciso pegar no pé dos americanos por causa de sua política externa (e conseqüente alienação interna) e não porque eles produzem Máquina Mortífera 4. Esse é o lado bom dos caras. Alguém poderia argumentar que abriria mão da existência do Máquina Mortífera para não ter que vê-los tratando o mundo como a casa da sogra, mas esse alguém é doido, pois essa opção não existe e uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Diversão por diversão não é coisa só de americano, nosso carnaval que o diga. É uma necessidade do homem. Sou o primeiro a dizer que não dá para ficar só na bobagem, que um pouco de conteúdo faz bem à saúde, ao cérebro e à humanidade em geral. Mas uma bobagem pura e simples de vez em quando é bom demais. E você deve concordar comigo, senão não estaria lendo isso aqui.

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Adjetivos

Finalmente descobri o que diferenciam os comerciais desses produtos vendidos por telefone das demais propagandas. Não se faça de desentendido, você sabe do que estou falando. Ab-Total, Manhattan Duster, Fast Não-Sei-Quê, etc.
Não é a animação do locutor, nem os modelos sorridentes e nem o Antes e Depois. Outros comerciais utilizam essas técnicas, se é que isso pode ser chamado de técnica. O que os comerciais de 0800 (ou 0900) têm e que ninguém mais usa são os adjetivos. Ou melhor, a quantidade absurda de adjetivos.
Cansado daquela mangueira pesada, molhada, e difícil de armazenar? Compre a Mega Rose, que é prática, resistente, moderna, retrátil e mais uma caralhada de adjetivos. Os produtos que você pode comprar por telefone nunca fazem uma coisa só e nem têm apenas um ou dois diferenciais. Eles fazem dezenas de coisas, trazem dezenas de vantagens e você pode dividir em dezenas de prestações.
Imagino que alguém que consuma todos esses produtos não deva morar em uma casa normal. Essa pessoa se transformaria em uma espécie de 007 do lar – nada seria o que aparentasse. O aspirador de pó espremeria laranjas, emitiria um sinal sonoro quando as crianças se comportassem mal e teria gravador de DVD – mas não apenas isso – ele também seria, simplesmente, o aspirador de pó mais eficiente, prático, modular e multifacetado que o dinheiro pode comprar. Ou no caso, o cartão de crédito, que é um dinheiro que não existe. Apropriado.
Inapropriadas são essas propagandas. Por mim, retirava-se todas elas do ar. Menos a do Ab-Total, que eu comprei, estou usando e já reduzi minha massa visceral em 0,3%.

O velho Irving

Um dos responsáveis pelo meu interesse em livros, tanto em lê-los quanto em eventualmente produzi-los, foi Irving Wallace.
Ele foi uma espécie de Tom Clancy das décadas de setenta e oitenta, escrevendo histórias absolutamente inverossímeis, mas tão bem pesquisadas e narradas de forma tão concatenada e realista, que você não tinha alternativa a não ser se deixar envolver por sua ficção e ser transportado para um mundo de sexo, intriga, conspiração e personagens memoráveis. Gosto mais dele que de Clancy, inclusive. Mas Clancy tem a seu favor o fato de que, depois do atentado às torres gêmeas e ao pentágono, suas tramas ficaram bem menos inverossímeis.
Irving Wallace morreu em 1990, mas a vantagem de escrever é que nunca se morre de verdade - é sempre possível reencontrar velhos amigos na literatura. Dias atrás, reli O Fã-Clube. Grande Irving, como pudemos ficar sem se falar por tanto tempo?