sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Evolução

Os enlatados americanos evoluíram. Do Homem de Seis Milhões de Dólares e Automan para CSI e Law and Order a distância é grande. Se antes essas produções eram divertidas e descerebradas, passaram a ser divertidas e, com o perdão do adjetivo, inteligentes.

É fácil associar os americanos com produtividade e consumo, mas sempre hesitamos em lembrar o quão inteligentes esses capitalistas podem ser e, de uns tempos para cá, eles têm me surpreendido. Já comentei no blog que não podemos mais criticar Hollywood como antes, pois ela tem produzido muitos dos filmes mais ácidos e instigantes da atualidade. Basta olhar para o Oscar e ver o prestígio dado aos filmes do Eastwood e ao Último Rei da Escócia. Eastwood, que já beijou macacos nas telas do cinema, se deu ao trabalho de fazer dois filmes sobre uma mesma batalha, sendo que um deles aborda o ponto de vista do inimigo. Incrível. E a prova de que as coisas evoluem mesmo.

E coisa parecida tem acontecido na tela pequena. Com inspirações na filosofia, na ciência (e não na ficção científica) e na psicologia, séries como Lost, CSI, Law and Order, 24 e Criminal Minds têm conquistado o mercado americano, o mundo e a mim.

Minha última grata surpresa foi com o Law and Order – Special Victms Unit, que trata sobre crimes de natureza sexual. Os diálogos são interessantes, o clima denso e as discussões éticas e morais absolutamente brilhantes. Até hoje me pego pensando no episódio no qual um pedófilo se casa com uma moça cuja doença a deixa com aparência de menina de quinze anos. O cara pôde dar vazão ao seu distúrbio sem quebrar a lei! É de dar nó na cabeça.

Nunca botei fé no seriado porque pensei que o tema não oferecia muita variedade. Achei que seriam investigações sobre um caso de estupro após o outro. Ledo engano. A sexualidade é um dos mares mais profundos e pouco navegados da alma humana e o que não falta é coisa interessante para dizer sobre o assunto. Coisas interessantes, bizarras, perturbadoras e emocionantes. Não é o mais divertido dessa safra nova de seriados, mas é um dos mais, está aí a palavra de novo, inteligentes.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

O Time dos Sonhos

Depois de assistir a vários filmes de Hollywood e a dezenas de seriados americanos, desenvolvi uma teoria que, salvo um infortunado erro de cálculo, pode ser a salvação do Brasil.
Para o país ir para frente, tudo que precisamos é juntar um punhado (cinco ou seis) de pessoas honestas, motivadas, altamente qualificadas e determinadas em posições-chave em todo o território nacional.
Imagine um grupo de amigos, dois senadores e três deputados, incorruptíveis, com amplo conhecimento jurídico, absolutamente determinados a expor toda a sujeira do congresso e a propor leis modernas, revolucionárias e claras em seu enunciado. Um deles colecionaria selos, outro tocaria trompete e uma deputada, a mais nova do grupo, seria bonita, gostosa, usaria sempre roupas que desafiariam o decoro parlamentar e teria, obviamente, doutorado em análise comportamental.
Ou uma delegacia de polícia com uma equipe que preza a ética acima de tudo, de moral inabalável e ótimo senso de humor. O delegado gordo seria sempre brilhante e com uma carreira política em ascensão e os investigadores estariam munidos da mais sofisticada tecnologia forense e, ainda por cima, saberiam como usá-la. Um dos membros da equipe, descendente de italiano, ficaria famoso por seu temperamento explosivo, seu senso de justiça e sua empatia com as vítimas.
Ou... Você pegou a idéia. Minha tese é a de que essas combinações parecem funcionar na ficção porque funcionariam muito bem na realidade. Tenho a prova – ou quase.
Trabalho em um local que, em alguns momentos chega bem próximo disso. O Programa Nacional de Aids do Brasil chegou a ser reconhecido como o melhor do mundo e, volta e meia, produz resultados interessantes, cutucando um pouco a sociedade e seus mecanismos internos. E, conhecendo o Programa por dentro, sei de histórias e personagens que não ficariam devendo a nenhum seriado americano.
Deve haver outros exemplos, dentro e fora do governo, mas vou falar só do que conheço, pois não quero acusar ninguém de eficiência injustamente. Todo cuidado é pouco, pois, do jeito que as coisas andam por aqui, ser eficiente deve ser crime dos mais graves.

Erros

Todo mundo erra. Mas apenas alguns poucos reconhecem seus erros e uma porcentagem menor ainda aprende com eles. A maior parte quer mesmo é esquecer que errou e volta e meia fantasia com uma improvável máquina do tempo: o mecanismo perfeito para apagar algumas mancadas (e para ganhar na loteria).
Eu, particularmente, acho bom que a tal máquina do tempo não exista. Alguém que tivesse a capacidade de voltar atrás e “corrigir” a própria vida seria, em minha opinião, um ser humano abominável. Não há caráter que resista à possibilidade de não ter que responder por nada. Alguém sem medo das conseqüências é alguém sem moral.
O melhor mesmo é, já que a lembrança dos erros é inevitável, que encaremos essas reminiscências de forma positiva e construtiva, possivelmente nos ajudando a amadurecer e a fazer as pazes com o passado.
Mas eu posso estar errado.

O cartaz

Já comentei várias vezes que um leigo dar palpite sobre publicidade é um pouco como dar palpite na criação dos filhos dos outros. A argumentação pode até ser razoável, mas, normalmente é fora de contexto e sem viabilidade prática.
Ninguém dá palpite no trabalho de um cirurgião, devido á complexidade técnica envolvida, mas, como todo mundo se comunica (uns melhor que outros), todos se sentem à vontade para falar sobre comunicação. Em tese, não vejo muito problema com isso, já que um dos princípios básicos da publicidade é justamente a interação com os outros, mas essa liberdade toda, se contribui com o processo, também produz aberrações.
Exemplo recente é a crítica ao cartaz PROTEÇÃO PARA VOCÊ, do Ministério da saúde, que mostra uma garrafa de cerveja e uma camisinha, lembrando que, se a cerveja precisa de proteção (o isopor) para ficar boa, você também precisa de proteção (a camisinha) para ficar bem. Os críticos da peça têm afirmado que esse cartaz estimula o consumo de álcool. Dá para entender? Bem, entender, é até possível, só não se pode é concordar.
Estímulo, em publicidade, funciona da seguinte forma: pegamos o ato de beber e o associamos a diversas coisas “legais”, como mulheres (ou homens, dependendo da preferência), amigos, farra, relaxamento, prazer, sabor, etc.
A cerveja com a camisinha no cartaz diz simplesmente o seguinte: ao lembrar da cerveja, lembre-se da camisinha. É claro que o cartaz também não produz nenhuma associação negativa com o álcool, o que obviamente impediria que o mesmo fosse colocado nos bares e que o público-alvo aceitasse e entendesse a mensagem.
Entendo que tem gente que morre de medo de tocar em qualquer assunto delicado e prefere que não se faça nada, com medo de errar. Não falamos de camisinha para não falar de sexo, não falamos de seringas descartáveis para não falar de drogas, não falamos de travestis para não revelar ao mundo que elas existem e não falamos sobre cerveja para não lembrar que as pessoas bebem, sim e que, ao beber, podem esquecer a camisinha. É o mesmo tipo de pessoa que vai detestar esse meu texto. Gente que adora dar palpite sem ser questionado.
Paciência. É preciso respeitar o ponto de vista das pessoas. Só não respeito os jornalistas que editaram a matéria do Globo sobre o assunto. Estes últimos, pelo menos em tese, deveriam usar o conhecimento de comunicação que têm para analisar as questões criticamente e não só para fazer barulho.