sexta-feira, 3 de março de 2006

Fantasias

Um amigo me contou, em uma conversa incidental, daquelas que não sabemos como começou e nem onde pode parar, que, certa feita, uma namorada disse para ele o seguinte:
— Prefiro que você me traia fisicamente que em pensamento.
— Por quê? – Ele perguntou, estranhando o raciocínio.
— Porque a imaginação é ilimitada.
A frase tem lá o seu efeito e sua lógica, mas, na prática, tenho cá minhas dúvidas. Uma coisa é querer matar alguém, outra completamente diferente é sujar as mãos de sangue. Contudo, se colocarmos minhas metáforas violentas de um lado e o exagero da namorada do amigo de outro, o que sobra é a constatação da moça de que a traição, em qualquer uma de suas formas, é algo desagradável. Mas, trair em pensamento é assim tão ruim?
Se o pensamento for um plano, uma meta ou uma obsessão tenho certeza de que é péssimo, pois a única coisa que separa essa idéia de sua concretização é a oportunidade. Mas se a traição estiver no terreno da fantasia, brincando entre o consciente e o inconsciente, não só acho que não é tão criminoso, como, me arrisco a dizer, deve ser normal e até saudável.
Fantasia, no relacionamento, é acessório. E não me refiro apenas às de enfermeira e de bombeiro que são vendidas nos sex shops (me contaram), embora essas também auxiliem nesse processo de falsa traição, onde todo mundo finge ser o que não é e imagina o outro como se fosse... Bem... Outro.

quinta-feira, 2 de março de 2006

No creo en las brujas, pero que las hay...

Sou um cético fervoroso. Cultivo verdadeiro prazer em duvidar das coisas, aceitando apenas que existem fenômenos para os quais ainda não achamos explicação. Já vi as mesmas esquisitices serem explicadas de forma diferente por católicos e espíritas, o que me deu a impressão de que nenhuma das duas explicações era satisfatória.
Curiosamente, fui alvo recentemente de duas artes divinatórias de origens distintas – e recebi o resultado das duas com carinho e bastante respeito. Afinal, as informações vieram de pessoas que, em princípio, me querem bem, não cobraram nada pelo serviço e não estavam tentando me provar absolutamente nada.
Uma teve origem espírita, foi realmente uma espécie de previsão do futuro e incluiu boas e más notícias (não se pode ganhar todas, certo?).
Outra teve origem na astrologia e foi mais um retrato da minha personalidade que qualquer outra coisa: o meu mapa astral. Sempre tive simpatia pelo dicionário de arquétipos da astrologia e do tarô, pois acho fantástica a facilidade com que conseguimos nos enxergar em suas descrições. Acho tudo mais psicológico que místico, mas não menos fascinante por causa disso. E, embora doa a um cético ter que admitir tal coisa, meu mapa astral foi particularmente preciso, com apenas um ou outro tiro n’água.
Tenho uma certa bronca com a predestinação, pois acho uma justificativa fácil para nossos erros. “Não fui eu, foi o destino”, “estava escrito”, “tinha que ser assim”. Enfim, consolo para o inexplicável. Mas entendo perfeitamente a ânsia de saber melhor quem somos, qual nosso papel no mundo e, se der, os números do próximo sorteio da sena.

Depressão pós-carnavalesca

Parece que muito assunto digno de crônica aconteceu enquanto eu estive fora. Dois shows internacionais, o beijo do Bono na Katilce e, é claro, o carnaval. É muito circo para nos ajudar a esquecer a falta do pão – e das eleições logo mais.
De tudo isso, só lamento não ter visto mais peitos e bundas neste carnaval. Em tese, sou contra essa objetificação da figura feminina, a exploração dos sentidos e a dessensibilização do erótico, mas, na prática, sempre gostei de peitos e bundas e de sua oferta, com o perdão do trocadilho, abundante, nesta época do ano.
Não entrei no clima e acabei indo fazer outra coisa à noite, em vez de acompanhar os desfiles. Não peguei nem mesmo as reprises, em horários mais complacentes. Agora, estou correndo atrás do prejuízo e tentando ver, na Internet, o que perdi, mas não é a mesma coisa. Sinto falta, nas fotos, do balançar natural dos seios e das bundas, eles próprios cada vez menos naturais, e os vídeos na web são pequenos e em baixa resolução. Paciência.
Tivesse eu ainda meus quinze anos, isso jamais teria acontecido, já que meus hormônios não o teriam permitido. Por outro lado, a oferta de peitos e bundas aumentou substancialmente de lá para cá. Não sei dizer se estou mesmo mais velho ou se já estou realmente um pouco entorpecido, efeito colateral do exagero. Talvez um pouco dos dois.
De qualquer forma, pelo menos uma coisa era mais ousada em minha adolescência: a transmissão dos bailes de carnaval da Manchete e, depois, da Bandeirantes. Aquilo, sim, era uma putaria digna de ficar acordado madrugada adentro. Totalmente politicamente incorreta e despudorada, com direito a genitália desnuda e tudo mais. Bons tempos, bons tempos. É claro que digo “bons tempos” no sentido figurado, aquilo tudo era uma libertinagem sem tamanho e não era apropriado à TV, mas, fica aqui a sugestão, e TV a cabo? Olha a oportunidade aí, gente.
Chamem-me de sexista, de Calígola, de tarado, mas o fato é que estava experimentando uma certa depressão pelo fato de não ter sido exposto à minha dose usual de peitos e bundas. Comprei a Playboy e a Sexy e já estou me sentindo melhor, mas, como já disse, não é a mesma coisa.

quarta-feira, 1 de março de 2006

O Seqüestro

Fui seqüestrado. Até prova em contrário, ser mantido em cativeiro, sem contato com o mundo exterior e contra a vontade é seqüestro, mesmo que não envolva pedido de resgate.
A polícia costuma alertar que, nesses casos, alguém próximo pode estar envolvido e eles não poderiam estar mais corretos: o responsável pela minha abdução foi meu próprio pâncreas. Mas ele, claro, não operou sozinho.
A operação contou com a colaboração do meu sistema imunológico e, possivelmente, do meu sistema nervoso parassimpático, apesar do envolvimento deste último não ter sido comprovado. Não é a primeira vez que meu pâncreas tenta me tirar de circulação, mas essa foi uma de suas investidas mais eficientes. O desgraçado só não foi preso porque seus advogados são excelentes – sempre alegam que ele estava sob a influência de drogas pesadas, como insulina e metformina.
Fui bem tratado no cativeiro. Alimentação frugal, mas constante (seis vezes ao dia) e pude, inclusive, receber amigos e usar o telefone de vez em quando, mas minha conexão com a Internet foi cortada. O pâncreas nega, mas é possível que ele estivesse envolvido também neste incidente. Existem indícios que apontam seu envolvimento com o raio que caiu em meu prédio, mas a Natureza nega e diz que nunca o viu mais gordo.
Enfim, estou livre novamente e de volta ao blog e, se depender de mim, por muito tempo, mas você sabe como são os órgãos internos hoje em dia... Incorrigíveis.