quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Moderninhos

Estamos vivendo mais. O tempo passa, as descobertas científicas vão aumentando e nossa capacidade de adiar a morte com qualidade de vida também aumenta. Seria muito bom, se não fôssemos seres humanos, criaturas capazes de transformar qualquer coisa em má notícia.
É que em vez de distribuirmos a vida extra em partes iguais, mais infância, mais juventude, mais vida adulta e, porque não?, mais velhice, queremos concentrar tudo na juventude. Os resultados são variados.
Pessoas na casa dos oitenta anos sendo pegas pela polícia federal com contrabando de êxtasi e viagra. Gente por volta dos setenta se endividando para comprar carros esporte e conhecer o mundo. A turma dos sessenta fugindo do cardiologista pra encarar mais um rodízio de carne. O pessoal dos cinqüenta dando jeito nas costas, nas pernas e nos braços por causa da ioga e do jiu-jitsu. Os de quarenta anos sorrindo e sofrendo com o primeiro filho e os de trinta usando roupinhas adolescentes e falando gírias pseudo-moderninhas: beleiza, véio e outras. Estes últimos são, de longe, os piores.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Americanismos

Recebi um e-mail pedindo para que eu boicotasse o filme Turistas, que trata sobre um grupo de americanos que vêm passar férias no Brasil e se dão muito mal. O e-mail afirma que o filme é preconceituoso e mentiroso, não passa uma visão realista do país e só prejudica a nossa imagem lá fora. Seguem, então, algumas considerações:
1. Se você quiser que eu boicote alguma coisa não me mande um e-mail atiçando minha curiosidade sobre o assunto.
2. É bem provável que Hollywood nunca tenha passado uma visão precisa sobre nada, especialmente em filmes de terror de orçamento barato e sensacionalistas. Ou você acha que a Casa de Cera, com a Paris Hilton, passa uma visão acurada do meio-oeste americano?
3. Outras coisas mais importantes andam manchando nossa imagem lá fora. A primeira dama ter requerido nacionalidade italiana é uma delas, a corrupção rompante e impune é outra. Não vou negar que o filme dá uma forcinha, mas somos bastante capazes de denegrir, nós mesmos, nossa imagem.
4. Fosse eu um estrangeiro e assistisse Cidade de Deus, teria muito mais medo de vir ao Brasil. Cidade de Deus parece ser bastante real e é muito mais violento e angustiante que uma ficção barata. Falar mal do próprio filho pode, né?
5. Como bem lembrou um amigo, nossa discussão sobre cinema e nacionalismo tem que estar, ao menos, um nível acima de Turistas. Glauber no Cinemark!
6. Vale lembrar que Hollywood nunca foi tão crítica dela mesma e que a própria indústria cinematográfica americana anda valorizando esse espírito crítico, premiando filmes como Syryana, Boa Noite Boa Sorte, O Senhor das Armas, Crash, etc. Ultimamente não tá dando para atacar Hollywood de forma generalizada.
Olha, não me chame para nenhuma passeata, mas até que não sou totalmente antipático a essa indignação, não. A chamada para o filme é bem forçada mesmo, algo como “Em um país onde vale tudo, tudo pode acontecer”. Mas aqui, cá entre nós, só entre os brasileiros. Lembre dos dólares na cueca e responda com toda sinceridade: vai dizer que essa frase nunca passou pela sua cabeça?

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Os Supremos

Se a sua locadora for decente, já deve ter nas prateleiras o desenho animado dos Supremos. Faça um favor a você mesmo e alugue a fita. Mas para você – mantenha as crianças afastadas, a não ser que não se importe que a meninada veja o Capitão América com crises de insegurança, o Thor enchendo a cara ou o Homem de Ferro passando a mão na bunda da Viúva Negra.
Os Supremos é a versão moderna dos Vingadores. Começou com uma história em quadrinhos realista e ousada escrita por Mark Millar e indecentemente bem ilustrada por Brian Hitch e chegou neste desenho animado, uma versão bem mais leve que o gibi, mas que tenta não comprometer demais o espírito do original.
É, muito provavelmente, bem diferente dos desenhos animados que você já deve ter assistido (a não ser que já tenha visto Ghost in the Shell ou Apple Seed) e experiências novas sempre deixam a vida mais interessante.
De nada.

Carreiras

Toshi Ito era uma pessoa sensível, poeta, amante das artes. Por força das circunstâncias, acabou parando na carreira errada: piloto kamikaze. O mundo estava destinado a jamais conhecer a poesia de Ito, pois ele morreria dentro de uma semana, sem nunca ter publicado nada.
Meio a contragosto, Ito aceitou seu destino e preparou-se para a morte. Era seu trabalho. O dinheiro garantia comida para a família e era uma maneira honrada de viver, mesmo que tivesse de morrer por isso. No fim, concluiu, não era tão ruim saber a data da própria morte. Pôde organizar tudo, botar as contas em dia e manter a correspondência atualizada. Estava pronto, podia morrer em paz.
Mas aconteceu o seguinte: os Estados Unidos soltaram as bombas e a guerra acabou e, com ela, a demanda para a especialidade de Ito. O pobre japonês viu-se, de uma hora para outra, sem mercado de trabalho.
Não era um bom piloto tradicional – suas aterrissagens eram péssimas, os trancos incomodavam os passageiros e danificavam o equipamento. Tinha treinado para trombar com as coisas e não para pousar delicadamente. Mas o pior não era isso. O pior era estar preparado para a morte e não morrer.
Ito não tinha planos para o final de semana. Não só para o próximo final de semana, mas para nenhum final de semana seguinte. Não tinha namorada e havia perdido o contato com seus amigos. Não tinha nem ânimo e nem disposição para freqüentar bares e festas. A vida, subitamente, parecia insossa e inapropriada. Passava por dificuldades financeiras, pois seu soldo havia sido reduzido e não tinha economias.
Chegou a pensar em se matar, mas era uma saída pouco honrada e Ito valorizava a honra. Foi por causa da honra que decidiu seguir a carreira improvável na aeronáutica. Se em vez de honra tivesse bom senso ou ambição pessoal, quem sabe um pouco de sorte... Mas, não. Tinha era honra, muita honra. E mais nada.
Voltou a escrever. Pouca coisa alimenta tanto a alma do poeta quanto a depressão. Obrigou-se a sair de casa e conhecer pessoas. Bebeu, drogou-se e experimentou um pouco de tudo no sexo. Acalmou-se, entrou para a Yoga, batalhou para ver seus poemas publicados e, um dia, distraído, voltou a sorrir. Morreu neste mesmo dia, à noite, em um acidente automobilístico, sem nem mesmo saber porque havia sorrido pela manhã.
Durante toda a sua vida, Ito teve dificuldades em conciliar o que se passava dentro de si mesmo com o que se passava no mudo à sua volta. Morreu de forma anônima e incômoda, como só os verdadeiros heróis morrem. Foi um exemplo de como o destino pode ser cruel ou aleatório e a prova de que qualquer uma das duas coisas é deveras perturbadora.
Existe um Toshi Ito dentro de cada um de nós. Um pedaço da gente que não está satisfeito com as coisas como estão, mas que também não vê alternativa para a mudança. Uma parte que aceita a morte, mas não a compreende e não sabe lidar com ela na prática. Fica, portanto, a lição, que deve ser interpretada de forma ampla e livre: mesmo para um piloto kamikaze é importante aprender a pousar suavemente.