sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Massagem

Da Série As Aventuras de Múcio Bortolini (o nome verdadeiro dele não é esse)

Múcio Bortolini (o nome verdadeiro dele não é esse) estava ficando velho. Tinha jogado futebol na tarde de domingo e o resultado foi uma segunda-feira de agonia e sofrimento. Sabia que seus músculos não conseguiriam se recuperar sozinhos e que para livrar-se da dor teria que recorrer a um especialista.
Mencionou, a um colega de trabalho, que estava procurando uma boa massagista. O amigo prontamente indicou a Neusa, uma japonesinha (a JapoNeusa!)de um metro e meio que entendia de massagem, acupuntura, cinesiologia, sacanagem e kung-fu. Só não entendia bem o português, como o Múcio pode comprovar na hora de marcar a consulta. O telefonema demorou mais de uma hora só para acertar o horário, o endereço Múcio perguntou para o amigo.
A Neusa atendia em casa mesmo. Um quarto-e-sala modesto, mas arrumadinho. Quando Múcio chegou, a televisão estava ligada a todo volume e a japonesinha o atendeu à caráter, vestida só de quimono. Com um gesto de cabeça pediu para que ele entrasse. Múcio tentou ser educado:
— Boa tarde. Eu...
A japonesa interrompeu-o bruscamente, gritando:
— Tila tudo!
— Como?
Ela apontou para as roupas de Múcio e repetiu:
— Tila!
— Tirar tudo? Até a cueca?
Ela não se abalou. Respondeu, ainda gritando:
— Se quelê lelax, tila cueca. Se não quelê, não tila.
— Lelax?
Neusa foi mais específica:
— Você quelê que eu mexe no passalinho? Se quelê, pinto pla fola. Pla eu chutar você.
— Chutar? Que é isso?
— É... Chutar com a boca.
— Pra chu... Não! Não! Olha, você não entendeu, a dor é nas costas! – Gritou Múcio, gesticulando. Ela sorriu e balançou a cabeça, como se tivesse entendido.
— Então tila a loupa, deixa cueca e deita.
Múcio olhou em volta.
— Deitar? Onde?
— No chão.
— No chão?
— É pla eu pisar você.
Múcio não tinha certeza se o que ela estava dizendo era o que realmente queria dizer.
— Pisar com o pé?
— Com o pé, clalo.
Múcio deitou no chão gelado e a pisação começou. E ele gemia e gritava e a japonesa gritava de volta:
— Lelaxa! Lelaxa!
E ela apertava e puxava as orelhas de Múcio e dava murros em suas omoplatas e espremia a panturrilha e, num determinado momento, os olhos de Múcio encheram-se de água. Ao final, sua musculatura parecia realmente mais leve e menos dolorida, mas Múcio estava emocionalmente abalado.
Foi só quando estava voltando para casa, pensando em como iria explicar para a esposa porque suas orelhas estavam tão vermelhas, que caiu a ficha: quem troca os “erres” pelos “eles” não é chinês? Nem precisou perguntar muito para descobrir que a Neusa havia nascido em Piracicaba e que todo o lance de japonês ou era gênero ou maluquice. Mas a massagem era uma beleza.

Gravidade

Depois de uma certa idade (cada vez mais reduzida) ninguém mais tem dúvidas sobre de onde vêm os bebês. Sexo, certo? Pois aí é que você se engana.
Sexo é apenas uma ferramenta. Fundamental e, em se tratando de ferramenta, uma das mais interessantes, mas não passa disso: uma chave-de-fenda (sem trocadilhos). E, se a gente parar para pensar, sexo não é nem mesmo fundamental, está aí a inseminação artificial para provar.
Outra prova de que sexo é apenas uma ferramenta é que ele pode ter outras aplicações, além de produzir bebês, assim como uma chave-de-fenda pode ser usada, por exemplo, para arrombar a porta dos fundos (sem trocadilhos). É só uma questão de criatividade.
Mas, então, de onde vêm os bebês? Ora, do nosso instinto de preservação. Um bom banho e roupas de marca podem enganar por um tempo, mas, no fim do dia, somos todos animais.
O humano heterossexual feminino médio está, desde a adolescência, preparado para procriar. Mas fatores ambientais como o custo de vida e comportamentais, como a farra com os amigos, os estudos e a opinião dos outros, impedem que o instinto tome conta do indivíduo.
Qualquer gravidez durante este período pode ser classificada como acidente, irresponsabilidade, safadeza ou falta de luz, dependendo da área geográfica e do círculo de convivência do espécime.
A partir dos dezoito, o instinto começa a ocupar seu espaço e atinge seu ápice aos trinta. Nessa idade, a fêmea humana que ainda não procriou se torna extremamente agressiva e passa a ser uma das criaturas mais perigosas da face da Terra. Se não estiver casada, vai casar e, se não estiver grávida, vai ficar. A opinião do macho não interessa.
E, por falar no macho, é justamente neste mesmo período que ele está mais vulnerável, ao perceber que está deixando para trás o auge de seu vigor físico. A fêmea sente o cheiro dessa insegurança a quilômetros de distância e parte para a ofensiva com roupas decotadas, marquinha de biquíni, streap tease, a disposição para realizar fantasias e até, veja o ponto em que as coisas chegam, com diálogo. Daí para transar sem camisinha é um pulo.
Os bebês nascem porque são necessários. Todo o resto, os ritos, o sexo, o romantismo - tudo é acessório para garantir a preservação da espécie. Curiosamente, uma vez que o filhote é concebido, o instinto acomoda-se, passa para segundo plano e uma outra coisa, ainda inexplicável para a ciência, toma seu lugar.
Alguns chamam essa outra coisa de amor, mas quem tem um filho sabe muito bem que não existem palavras para descrever o sentimento que toma conta da gente.

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

Bandidos e Mocinhos

O Planalto Central anda um verdadeiro faroeste. Mas é um faroeste de produção barata e poucos atores, o que gera uma situação curiosa: o mesmo ator às vezes é bandido e às vezes é mocinho.
Roberto Jeferson, por exemplo. Até o nome é de bandido, mas se não fosse seu ataque suicida ao Álamo do Governo, os outros bandidos teriam permanecido entocados e intocáveis.
Marcos Valério, outro nome de dramalhão mexicano, também teve lá o seu momento de mártir. Não colou, mas ele tentou.
Comédia e sexo também estiveram presentes, com os dólares na cueca e as prostitutas de luxo das festas do PT. Sem esquecer da secretária, que quase tirou a roupa.
E tem o Buani, o dono de restaurante que foi a ruína de Severino, o Breve, Presidente da Câmara. Esse, para mim, não é nem mocinho, nem bandido. Nesse bangue-bangue maluco, ele é o índio.
No programa do Jô Soares da última quarta-feira foi tratado como bandido. Foi pressionado e desrespeitado, com perguntas agressivas e, algumas vezes, até mal-formuladas. Fiquei incomodado. Quando Jefferson foi achincalhado pelos seus pares, aquilo não me abalou. Jefferson posou de mocinho, mas todo mundo já sabia que, neste filme, ele morreria no final.
Já o índio, no bangue-bangue, pode até cometer alguns crimes, mas sua conversão para o lado dos mocinhos é mais honesta. Acho que é o caso de Buani. Ele aceitou ser coagido por Severino e só denunciou o esquema quando lhe foi conveniente. Mas denunciou. Buani é um homem relativamente comum que teve coragem de romper o esquema e eu acho isso louvável.
Somos obrigados a reconhecer que o brasileiro convive com a irregularidade a ponto de não saber mais o que é certo e o que é errado. Feiras de produtos piratas, muambeiros, doleiros, jogo do bicho – que atire a primeira pedra aquele que nunca usufruiu destes serviços, todos ilegais. E não vou nem falar de sonegação do imposto de renda.
Buani rompeu com o esquema e acho isso, repito, louvável.
Só não vamos misturar as coisas. Acho digna a denúncia e não a anterior conivência com a extorsão. Se ele cometeu algum crime, deve pagar por isso, mas sua dívida agora é com a justiça - e não mais comigo. Eu o teria tratado com mais respeito.

A Ala Oeste

Tem um estado de espírito que não é bem depressão, não é exatamente tristeza e nem desilusão. É uma emoção sem nome que mistura um pouco das três coisas e acrescenta uma dose de estupefação. Estava me sentindo assim ontem.
Assisti pela primeira vez o seriado americano The West Wing. Ele já está no décimo ano a ganhou inúmeros prêmios, mas eu nunca tinha visto. O apelo da série é mostrar a rotina da ala oeste da Casa Branca e os personagens principais da série são, nada menos, o presidente dos Estados unidos e seu staff imediato – assessores de imprensa, puxa-sacos, etc.
O presidente é magistralmente interpretado pelo veterano Martin Sheen. Mas aí é que está o problema – é magistralmente demais. Ele fala não sei quantas línguas, converte escalas métricas e de temperatura de cabeça, é ágil nas decisões, compreensivo, conciliador, diplomata, sonhador, ousado e agressivo quando necessário (só quando necessário). Enfim, é o presidente que todo mundo gostaria que os EUA tivessem. E mais: todo o staff também é competentíssimo – parece mais um grupo de executivos da AOL Time-Warner, que funcionários públicos.
E é por isso que o programa te deixa assim, meio esquisito. A gente assiste e é bombardeado por eficiência e compromisso e, então, olha pro lado e vê o Bush, o Lula, o Severino... A série é como um documentário invertido, onde a mentira é tratada de forma tão realista, que você fica desejando que fosse verdade. Rapaz... Não é fácil.
Uma amiga minha sempre disse que, para ler Caras, a pessoa precisa ter uma cabeça muito boa. Não é qualquer um que agüenta incólume aquela enxurrada de gente rica, bonita e feliz. Pois é, o seriado The West Wing também não é para qualquer um. Bom, pelo menos o Severino renunciou.