sexta-feira, 23 de março de 2007

Metáfora

A felicidade é como uma pérola no ventre de uma hidra de sete cabeças que deve ser alcançada destroçando cada uma dessas cabeças e cauterizando as feridas com o fogo da angústia, para evitar que as cabeças cresçam novamente. Só depois de eviscerar a hidra, é que, untados pelo sangue da besta, podemos ter a verdadeira paz de espírito, ainda que emporcalhada de bile e impregnada do odor pútrido da batalha. Hipoteticamente, claro.

quarta-feira, 21 de março de 2007

Eu e a humanidade – uma humilde reflexão de aniversário

Hoje faço trinta e quatro anos. Passei um ano a mais que Jesus Cristo na Terra, mas meu currículo não é tão impressionante quanto o dele. Nenhum milagre, nenhum seguidor e é quase certo que a história não será dividida em antes e depois de mim. O lado bom disso é que também não fui crucificado.

De qualquer maneira, comparar minha vida (ou a de qualquer outro) com a de Cristo não é muito justo. Mesmo assim, ainda estou muito longe de ser lembrado pela humanidade pelos meus feitos – apesar de ter feito uma ou outra coisa bem razoáveis. Quem de vocês já comeu dez pedaços de pizza em dez minutos? Quem? Quem?

Contudo, por mais impressionante que isso seja, esse não é o tipo de coisa que atrai a humanidade. A humanidade gosta de pessoas que movem multidões com suas músicas, que derrubam governos, que pintam com sensibilidade e originalidade, que conseguem acertar a trave com uma bola de futebol quatro vezes seguidas (mesmo que seja truque) ou que escrevem de forma comovente e reveladora.

Mas a humanidade também gosta do Paulo Coelho e da Paris Hilton, por isso ainda não descartei por completo minhas chances de impressioná-la de alguma forma.

O problema é que o tempo está passando e algumas coisas já estão fora de questão. Tive meus cinco minutos de fama com a música na minha fase pós-adolescente, mas quinhentas pessoas na platéia estão longe de ser uma multidão. Como executivo, cheguei a sair na Caras (nas fotos pequenas) e na televisão (DFTV), mas essa fase agora parece outra vida. Conheci supermodelos, mas nunca fui filmado na praia com uma delas. O esporte nunca foi realmente uma opção (apesar de ter marcado um gol na seleção brasileira infanto-juvenil de futebol cinco). Nas artes plásticas, o máximo que consegui foi um puxão de orelha de quem realmente sabe o que está fazendo. E no teatro, bem, basta dizer que o desaparecimento da fita gravada com minha última apresentação foi melhor para todo mundo – para mim e para a humanidade.

Minha melhor chance ainda é publicar um livro. É uma das únicas coisas para a qual ainda não estou velho demais. Pelo contrário – estou até novo. Mas que seria bom ter algo publicado mais rapidamente, seria.

Mas tem algo que a humanidade ainda não sabe que conquistei. Algo que, quase inadvertidamente, consegui fazer muito bem feito. Algo que, sem sombra de dúvida, vai deixá-la se roendo de inveja.

Hoje à tarde, apesar de todos os meus problemas, fracassos, crises de meia idade e resultados de exames médicos, ao refletir sobre a minha vida, não consegui conter um sorriso. Um enorme, praticamente pornográfico, sorriso de satisfação.

RÁ! Toma essa, humanidade!

terça-feira, 20 de março de 2007

O jeitinho brasileiro tem jeito?

Não são todos, claro, mas de uma forma geral o brasileiro é muito pouco civilizado.

Entendo que a miséria pode levar o ser humano a fazer coisas inomináveis e sei que a falta de perspectiva pode acabar com qualquer moral, mas isso não é desculpa para o famoso "jeitinho" e o comportamento malandro da classe média brasileira, que não está passando fome e nem necessidade.

O governo Lula carimbou a falcatrua, dos benefícios concedidos ao filho do presidente por empresas públicas, passando pela quadrilha organizada que era (era?) a diretoria do PT até o espanto do presidente de que a crise dos Correios tenha sido deflagrada pro "apenas" cinco mil reais. Como é que alguém pode ficar indignado quando se rouba só isso, não é mesmo? Ainda se fossem alguns milhõezinhos...

Lula é mesmo o retrato do brasileiro. Esforçado, chega onde ninguém acredita que seria possível, mesmo que para isso lhe falte cultura e sobre malandragem. Não foi o presidente que viu o filme pirata de Dois Filhos de Francisco? E ainda teve coragem de elogiar a fita em cadeia nacional?

O povo aceita tudo isso porque faz a mesma coisa. Vê filme pirata, mente na entrevista de emprego, rouba material de escritório do trabalho, estaciona na vaga de deficientes, falsifica carteira de estudante e acha tudo isso normal.

Até entenderia se isso acontecesse uma vez ou outra, mas o fato é que, como diz o Lobão, ainda não inventaram dinheiro que o brasileiro não pudesse ganhar. E esse comportamento está refletido nos nossos governantes. A triste verdade é que o povo não tem muita moral para exigir, bem... moralidade.

Imagino que o cerne dessa falta de civilidade seja uma espécie de vingança contra os impostos abusivos e o massacre que nossas finanças e esperanças sofrem mês a mês, mas, infelizmente, nessa guerrilha contra o caráter, as maiores vítimas acabam sendo nós mesmos, pois é muito difícil estabelecer os limites do "jeitinho".

Ontem, no supermercado cheio, uma senhora entrou na maior cara de pau no caixa para até dez volumes com um carrinho transbordando de compras. Informei-a de que estava na fila errada e ela fingiu que não escutou. Insisti e ela me disse, com o nariz em pé, que já estava na fila e que ninguém iria tirar ela dali. O gerente do supermercado interveio e pediu para que ela fosse para outra fila. Ela foi, tendo que ouvir os aplausos das pessoas que estavam na fila certa. Quando eu estava saindo do mercado, a mulher veio correndo por trás e me deu um soco nas costas.

Não me machuquei, mas fiquei impressionado com o fato. Coisa parecida acontece no trânsito todos os dias. Um cara é fechado, xinga o infrator e acaba levando um tiro, porque o errado não admite que lhe apontem o erro.

Como disse, não é todo mundo. Talvez nem seja a maioria, mas sei que é gente suficiente para afetar o nosso dia-a-dia e o nosso país, basta olhar para quem elegemos para nos representar.


segunda-feira, 19 de março de 2007

De mal a melhor 3

Vocês deveriam ler os comentários que fizeram sobre a minha crônica "De mal a melhor 2". Primeiro, porque são bons e, segundo, porque complementam bem a idéia da crônica e, terceiro, se vocês não lerem nem a crônica e nem os comentários não vão entender direito o que vou escrever aqui.

É claro que, quando afirmo que o mundo está melhorando, esta não é uma frase completamente isenta de ironia, pelos motivos que o Fred apresentou muito bem – e muitos outros. Por outro lado, acho mesmo que estou melhor hoje do que estaria há, digamos, sessenta anos atrás. Para dar um exemplo egoísta e imediato, os remédios que tomo hoje para a diabetes não haviam sido sequer inventados na época. Hoje, esse remédio é distribuído de graça pelo governo. Há sessenta anos eu não teria chegado aos trinta.

Estamos melhor hoje, então. Mas por que parece que não estamos?

A verdade é que bom e ruim são conceitos relativos e, com a peste negra assolando a cidade ou não, se alguém diz que as coisas não vão bem, as coisas não vão bem e pronto. Fatos não servem para medir a felicidade e é por isso que tanto ricos quanto pobres estão sujeitos à tristeza e à depressão. O ser humano se adapta muito facilmente a qualquer situação, seja ela boa ou ruim.

Além disso, a adversidade não nos dá tempo para pensar e, freqüentemente, faz vir à tona o que temos de melhor. Se os Vikings vão invadir a aldeia, toda a aldeia irá se unir. O egoísmo não tem espaço em uma situação de catástrofe. O individualismo não tem espaço dentro da senzala. O isolamento não consola os sobreviventes da enchente. A situação antigamente era preta, mas os esforços da humanidade para se consolar e buscar a realização eram maiores. As famílias comiam juntas à mesa, os namoros eram longos e repletos de poesia, os aldeões se reuniam em torno da fogueira para contar histórias.

Nos tempos modernos, onde a tribo não tem mais que sair em bando para caçar, o individualismo nos traz um tipo de problema completamente novo: a catástrofe individual. A depressão, a angústia e a dominação econômica e cultural. Em uma sociedade onde temos muito (até o mendigo de hoje tem mais que o mendigo da idade média), ainda ficamos com a sensação de que temos pouco – e não sabemos exatamente o que queremos. A solução é ter dinheiro, pois ele compra qualquer coisa.

A cultura praticamente inexiste porque, embora a produção cultural seja o produto de indivíduos, antes, esses indivíduos estavam imersos em uma sociedade mais coletiva. A angústia dos artistas era a angústia da humanidade.

Quem escreve no blog, trancado dentro de casa, sem botar o nariz para fora, inventando seu próprio vocabulário, está produzindo um texto com uma visão muito estreita. Bandas de música que não se reúnem para ensaiar (cada um grava sua parte em casa e alguém mixa tudo no computador) estão livres até da autocrítica.

Enfim, é por isso que disse, no primeiro texto, que o mundo estava possivelmente melhor. Talvez não esteja. Talvez esteja apenas com problemas diferentes com o agravante de estar, a cada dia que passa, mais próximo do fim – sem a perspectiva de uma melhora realmente significativa adiante.

E talvez a beleza esteja realmente nos olhos de quem vê.