quinta-feira, 8 de março de 2007

O Mundo do Alex

O jornalista Alex Gutemberg, do jornal o Estado do Paraná publicou, em dois de fevereiro, um artigo sobre o Nordeste intitulado Um Mundo que Parou no Tempo. Neste texto, Alex descreveu o Nordeste como uma terra quase medieval, repleta de violência e miséria e botou a culpa disso tudo nos estupradores europeus, que bagunçaram a pureza étnica de lá e criaram um povo sem raízes e desestruturado.

Para provar seus argumentos, Alex dá o seu depoimento pessoal sobre duas cenas do “cotidiano” nordestino. Na primeira, um motoqueiro acompanhado de sua namorada dispara dois tiros contra um transeunte, atraindo pouca ou nenhuma atenção dos passantes. E, na segunda, uma senhora abastada não se incomoda de jogar lixo na rua, “já que está suja mesmo”.
O artigo de Alex é perigoso porque mistura fatos concretos com uma conclusão muito particular e estreita do jornalista, correndo o risco de ser convincente. Sinto-me, portanto, na obrigação de desmenti-lo.

Os índios brasileiros foram explorados em todos os lugares do país, inclusive no Sul, onde foram exterminados mais eficientemente e onde a miscigenação é menor. Menor, porém existente.

Violência e miséria não são exclusividade do Nordeste, mas um mal que assola todo o país, especialmente nos grandes centros urbanos. Políticos e governantes corruptos e populistas, interessados em manter a indústria da fome e da desinformação têm muito mais culpa sobre a situação do país que qualquer estuprador estrangeiro, com a vantagem de que os governantes ainda podem ser identificados e punidos, se não pela justiça, quem sabe pelo voto. E se é verdade que a exploração e a circunstância acentuaram as diferenças sociais do Nordeste, também é verdade que passo minhas férias muito mais tranqüilo no Nordeste que no Rio de Janeiro.

E o fato é que as cenas terríveis que Alex descreve podem acontecer em qualquer cidade do Brasil, inclusive no sul do país. Acrescento ainda o meu depoimento pessoal: nunca vi ninguém ser assassinado nas ruas do Nordeste e já vi várias pessoas jogando lixo nas ruas de lá – a maioria delas turistas. Gente de fora que vai para lá curtir o sol e as mulheres, mas trata a terra com o mesmo desprezo que os estupradores europeus.

Alex, algumas das coisas terríveis que você descreve em sua matéria não estão acontecendo apenas no Nordeste – estão acontecendo no Brasil. E me entristece muito ver um jornalista brasileiro falando dos problemas brasileiros como se não fosse com ele. Separatismo é isso.

segunda-feira, 5 de março de 2007

O Ronin e o mercador

O mercador seguia pela estrada de terra tranquilamente em sua carroça quando se deparou com uma tropa liderada pelo novo bugiô (funcionário do governo – neste caso, um fiscal de estradas) de Nagasaki.

— Sua carroça e seus bens estão confiscados – disse o bugiô, depois de apresentar-se formalmente.

— Mas... Por quê? – Perguntou o mercador, que tinha todos seus documentos em ordem.

— Por contrabando.

— Mas, senhor, levo comigo apenas tecidos. Estou sendo acusado sem provas?

— Provas podem ser arrumadas posteriormente. O importante é que eu mostre serviço, pois sou novo e desejo impressionar meus superiores. Uma carroça grande como a sua e tão cheia de mercadorias é perfeita para isso.

O mercador foi derrubado de sua carroça e amarrado. Nesse meio tempo, um ronin (samurai sem mestre) que a tudo ouvia escondido nas sombras do bosque que ladeava a pequena estrada, apareceu e apresentou-se:

— Sou Ito Ogami, assassino.

E, com golpes precisos e fortes de sua katana, matou o bugiô e seus soldados. Com um último golpe, libertou o mercador das cordas.

— Obrigado – agradeceu o mercador, inclinando-se para frente.

— Sua gratidão não é necessária. Estou aqui a mando de outro mercador, que sofreu a mesma injustiça que você. Não fiz o que fiz para ajudá-lo, mas para cumprir meu contrato.

O mercador olhou para os pés feridos do ronin, que deveria estar rondando a estrada há dias, e perguntou, em tom humilde:

— Para onde vai?

— Para Edo (Tókio).

— Então peço que suba em minha carroça que o levarei até lá. É justamente para onde estou indo.

— Já disse que sua gratidão não é bem-vinda – respondeu o ronin.

— Mas não se trata de gratidão! Absolutamente! Falo de algo maior chamado destino. Não fosse o senhor aparecer para cumprir sua tarefa neste exato momento, eu perderia tudo o que eu tinha. Não fosse minha carroça para ocultar a sua chegada, o senhor talvez não tivesse tido a oportunidade de aproximar-se tanto de seu alvo. O destino nos favoreceu a ambos. E quis o destino que o senhor salvasse a vida não apenas de um mercador, mas a de um mercador, dono de uma carroça, cujo itinerário lhe convém.

O ronin ficou em silêncio. Um meio sorrido ameaçando formar-se em seus lábios. O mercador continuou:

— O destino está lhe convidando a chegar mais cedo e descansado em Edo e o que o destino nos reserva, senhor samurai, devemos aceitar.

O samurai então pediu licença, limpou seus pés e subiu na carroça.


 

Essa é minha homenagem a Kazuo Koike, criador de Ito Ogami, O Lobo Solitário.

Os Infiltrados (The Departed)

Já que comecei a falar dos filmes do Oscar, vou até o fim. Tá bom, sem radicalismos, mas vou falar pelo menos de mais um: Os Infiltrados.

A começar pela tradução do título que, em português, perdeu o tom irônico para dar lugar a uma versão mais literal do roteiro. Não chega a ser uma reclamação, já que uma tradução direta do título original teria apelo comercial duvidoso. “Os que se Foram”? Melhor “Os Infiltrados”, mas fica a observação. Até porque já escrevi e estou com preguiça de deletar.

Não é o melhor filme de Scorcese, mas é realmente possível que seja o melhor filme do ano no quesito entretenimento. Boas atuações, boa trilha sonora, fantástica edição, bom-humor, violência, diálogos interessantes, enfim, é um filme até meio despretensioso e, talvez por isso mesmo, divertido.

Em Os Bons Companheiros, Scorcese contou uma história de máfia moderna que, apesar do humor negro, tinha o pé na realidade. Em Gangues de Nova York, pintou uma fantasia com tons dramáticos. Em Os Inflitrados o diretor realiza uma sátira a ele mesmo. A história claramente descamba para o surreal, a la Pulp Fiction, criando personagens inesquecíveis, como os de Alec Baldwin, Mark Whalberg e do próprio Jack Nicholson (interpretando ele mesmo mais uma vez – e sempre ótimo).

O jeito certo de assistir a Os Inflitrados é sentar na cadeira do cinema achando que o filme não vai ser lá grande coisa – aí você vai adorar!

domingo, 4 de março de 2007

Babel

Acabei de assistir ao filme Babel da maneira mais apropriada possível. Em um DVD copiado no Paraguay (ou em Taiwan, tanto faz), com legendas que misturavam português de Portugal, espanhol e muita criatividade.

Como o filme trata justamente da diversidade de culturas, de línguas e da insanidade resultante da globalização, nada mais adequado que dificultar ao máximo o entendimento da história. Veja bem que, neste caso, a cópia pirata do filme, contribui para a experiência multicultural que o filme propõe e é, portanto, plenamente justificada.

A experiência teria sido mais bem sucedida se o filme fosse um pouquinho melhor. Lento e previsível, Babel deve seu sucesso às sessões de auto-análise que a sociedade americana tem promovido através do seu cinema (normalmente financiando cineastas de outros países, para garantir o distanciamento e eticétera). Não se trata de uma porcaria, longe disso. Até me arrisco a recomendá-lo, especialmente se você estiver no clima para um pouco de entretenimento deprê, mas só se você já tiver assistido aos outros indicados do Oscar. Todos os outros – incluindo Happy Feet e o documentário do Al Gore.