quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Comentários

Você tem paciência de assistir a todos os extras do DVD? Sou obrigado a confessar que até gosto de uma ou outra coisa. Erros de gravação, cenas adicionais, documentários que complementam as histórias do filme, etc. Mas e o tal do comentário? Será que tem alguém que assiste àquilo?
Ainda se fosse a visão do diretor ou dos atores sobre uma ou outra cena, tudo bem, mas o princípio do comentário é alguém falando o tempo todo enquanto o filme passa. É a simulação do chato que não para de tagarelar no banco de trás do cinema. Tudo bem que o chato é, normalmente, o diretor ou o astro do filme. Mas chato é chato, não importa sua posição social ou conta bancária.
Certa vez, munido de pipoca, coca light, almofadas macias e uma disposição de fazer inveja à uma criança de cinco anos no parquinho, sentei-me para assistir aos comentários de O Poderoso Chefão. Note bem, que não escolhi qualquer filme. Como uma moça de família, fiz questão de selecionar muito bem com quem seria minha primeira vez. Dormi. No Poderoso Chefão! Aquele tom monocórdio do Coppola no meu ouvido foi fulminante.
Dias depois aluguei uma fita, Meu Vizinho Mafioso, salvo um provável engano, em que os comentários vinham como opção padrão. Você ligava o DVD e, enquanto os créditos iniciais apareciam, o diretor de fotografia começava sua pregação.
Em um primeiro momento, achei que o aparelho tinha pegado uma linha cruzada com a CNN. Quando percebi o que estava acontecendo, fui até o menu opções e alterei as configurações, mas, antes de continuar a ver o filme, botei o pijama. Trauma.
Mas tudo isso prova que deve ter gente que se amarra mesmo nessa história de comentário. Tanto que às vezes acha o comentário melhor que o filme. Se você é uma dessas pessoas, vai adorar o novo endereço do Ninguém Perguntou: http://ninguemperguntou.blogspot.com/. Lá, você pode fazer seus comentários sem se cadastrar. Se não quiser comentar, ainda pode ler as crônicas e, se não quiser nem comentar e nem ler as crônicas, você deve ter recebido este e-mail por engano.
O site no 1grau, por enquanto, continua ativo também. O Ninguém Perguntou agora está igual a TV por assinatura: você tem várias opções para ver a mesma coisa.

Meias Palavras

Clodoaldo não era um sujeito particularmente curioso. Uma vez, por exemplo, achou estranho sua filha de dezenove anos chegar em casa molhada da cabeça aos pés em um dia ensolarado. Quando perguntou o que havia acontecido com a menina, ela respondeu com uma evasiva:
— Ihhhh, pai. Não começa!
E ele não começou. Não porque não quisesse contrariar a filha, mas porque não tinha curiosidade. Além do mais, a Maria Rita sempre foi muito ajuizada. E pronto. A esposa de Clodoaldo quase enlouquecia.
— Clodoaldo! Você nem queira saber o segredo que a Berenice me contou.
— E não quero mesmo. Não é segredo? É melhor não contar.
— Mas...
— Não conta, não, meu amor. E se a Berenice ficar chateada com você?
— Mas você não tá curioso?
— Não.
E a Teresa (esposa do Clodoaldo) tinha que esperar a filha voltar da faculdade para contar a fofoca. No dia que a filha atrasa, chegava a ter dores de cabeça de tanto guardar segredo.
Mas tinha uma curiosidade que Clodoaldo não conseguia controlar. Quando ouvia, sem querer, uma conversa pela metade, não agüentava de curiosidade e tinha que saber como é que a conversa tinha começado. Não tinha o menor interesse no final do diálogo, mas no seu começo. Chegava a abordar completos estranhos no meio da rua.
—...E tive que pagar três vezes mais pelo negócio.
— Pelo quê? – Perguntava Clodoaldo, de repente, quase matando a pessoa de susto.
Com o tempo, passou a controlar o impulso de falar com desconhecidos, mas a curiosidade não passava. Evitava até circular em lugares com muita gente. Uma vez foi ao shopping e por pouco não enlouqueceu. Foram dezenas de conversas pela metade.
—...No final mexia a bundinha.
—... Precisava ver a cara dele.
—... Menina, foi por pouco.
No final de quê? Cara de quem? Por pouco o quê? Para diminuir sua angústia, passou a inventar, ele próprio, os começos das conversas, tendo como referência o jeitão de quem estava conversando.
Duas mulheres de vinte e tantos anos. Devem estar falando de seus bebês:
— A Ritinha ganhou um brinquedo, mas já quebrou. Uma pena, pois o boneco cantava, dançava e, no final, mexia a bundinha.
E por aí vai. No último final de semana, Clodoaldo desapareceu. Não avisou ninguém, não levou suas roupas. Sacou cem reais no caixa eletrônico e sumiu, deixando apenas um bilhete: “... Por isso tomei essa decisão. Será melhor assim”.

terça-feira, 30 de agosto de 2005

Celular

Sempre achei divertida a cara que as pessoas fazem quando descobrem que não tenho celular, mas um colega ontem quase perdeu o controle e me agrediu fisicamente só porque não tenho um aparelhinho desses. Ele, inclusive, quis me dar um de presente que eu, polidamente, recusei. O homem me olhava como se eu fosse uma criatura de outro planeta.

Talvez eu seja mesmo. Não conheço mais ninguém que não tenha um. Minha esposa, minha mãe, meus amigos, minha faxineira. Todos carregam um telefone, para cima e para baixo, como se sua vida dependesse daquele apêndice eletrônico. Com um cego e sua bengala, as pessoas e seus celulares são inseparáveis.

Acho até legal ter a capacidade de encher o saco de quem eu quiser, na hora que bem entender. E tirar fotos e botar o tema da vitória na chamada, essas coisas. Mas acho ainda mais legal poder dirigir ouvindo música e prestando atenção no trânsito.

— Mas e se algum parente seu morrer? – Perguntou meu colega do primeiro parágrafo, tragicamente.

Até onde sei, ainda não lançaram um modelo com a tecla ressuscitar e saber de um acidente mais cedo não vai mudar em nada o que aconteceu. Não tenho pressa de sofrer.

— Mas e se você precisar de ajuda, numa emergência? – Insistiu meu indignado colega, mais comedido.

Não duvido que o celular já tenha até salvado vidas, mas aposto que coletes a prova de balas, massageadores cardíacos e presença de espírito já salvaram muito mais e nem todo mundo tem. Além do mais, não estou sendo contra o uso do celular em geral – se você acha que o troço é útil para você então, por favor, use.

Já bati o carro, já furei o pneu em lugares ermos e já passei mal e o celular não fez falta. Não dependo dele, não é a primeira coisa que passa pela minha cabeça quando estou em apuros. Quando fura o pneu do carro, em vez de ligar pro guincho, eu troco.

Sei que um dia terei que ceder. Já tive um no passado e provavelmente terei outro no futuro. Sou um cara que gosta de tecnologia: tenho videogame, meu computador é de última geração. Um dia terei um telefone móvel. Um dia, não hoje.

É que me dá uma sensação estranha quando olho em volta e vejo todo mundo com um celular no ouvido ou a tiracolo. Vocês lembram daquele filme que passava de madrugada onde quem dormia era dominado por uma raça alienígena? No fim, todo mundo ficava sob o controle dos ETs, achando que era a coisa mais normal do mundo. Você já parou pra pensar se sua necessidade pelo celular é real ou se você apenas dormiu no ponto?

Ah! Quem sou eu para criticar? Sei há muito tempo que o bom-senso perdeu a guerra para o consumismo – fui uma das primeiras vítimas. Talvez seja até por isso que eu resista tanto. Sou como o pecador que já experimentou todos os pecados, menos um – justamente o mais usual, que é pro Diabo morrer de raiva. O Diabo e o meu colega, claro.

sábado, 27 de agosto de 2005

Anestesia

Não sei se é porque é sexta-feira, se é efeito da idade ou uma espécie de catalepsia diante de tudo o que está aí, mas o fato é que estou anestesiado.
Nada me parece interessante. Nem os escândalos sexuais do governo Lula, nem os escândalos financeiros, nem a quantidade esdrúxula de coisas que vêm aparecendo nas cuecas dos outros, nem o Robinho na Espanha, nem a Cléo Pires. OK, a Cléo Pires continua interessante, mas o resto...
O resultado disso é que as crônicas do Ninguém Perguntou estão ficando cada vez mais espaçadas, ou então com temas amplos como a vida, a morte e o infinito. Temas que só são divertidos em pequenas quantidades ou após muitas quantidades de uísque. Quem fala disso o tempo todo ou é maníaco-depressivo ou está fazendo de tudo para ser.
Mas não estou deprimido, daí a necessidade de falar sobre outras coisas – mas sobre o quê?
Saiu no CorreioWeb que os britânicos vão lançar um estudo provando que os homens são mais inteligentes que as mulheres. Algo a ver com o tamanho do cérebro, a capacidade cognitiva espacial e a habilidade de trocar lâmpadas e pneus de carro. É o tipo de coisa que poderia dar um texto interessante, mas não seria novidade, todo mundo já sabe que os homens são mais inteligentes que as mulheres (estou entediado, mas não estou morto. Não vou perder uma oportunidade dessas de fazer uma provocação gratuita).
Teve também o furacão Katrina que saiu derrubando árvores em cima dos outros lá nos EUA. Nada novo. O fato de todos os furacões terem nomes de mulheres é legal e poderia render um texto engraçado, mas eu já satisfiz o machista dentro de mim no parágrafo acima.
Não sei se já mencionei. Dentro de mim tem um machista, um médico, um louco, o Alceu, um torneiro mecânico e uma lésbica. Eu também poderia escrever sobre isso, mas o machista já está satisfeito, o médico vai dar plantão neste fim de semana e não está a fim de trabalho, o louco está acompanhando a CPI, o torneiro mecânico pediu férias e a lésbica... Onde está a lésbica? Não sei onde foi parar, esta menina anda impossível.
O Alceu está aqui comigo, escrevendo, mas boceja a cada dois minutos. Desconfio que meu inconsciente deu uma festinha daquelas ontem à noite. Mas é apenas uma suspeita, não tenho muita consciência sobre o que acontece no meu inconsciente.
Enfim, se o problema persistir na semana que vem, passo a me preocupar. Hoje, não vou nem esquentar a cabeça. Plena sexta, vou parar de escrever e me mandar pro boliche – aposto que a lésbica já está lá, tomando uma cervejinha.