quinta-feira, 2 de abril de 2009

Machado...

Li uma coisa engraçada sobre o Machado de Assis. Ah, sim. Se você não sabe quem é Machado de Assis, por favor, retire-se. Afinal, ele é simplesmente o maior escritor brasileiro de todos os tempos. E, aparentemente, mais vivo que nunca, pois, se o escritor vive pela sua palavra, a prosa de Machado continua perfeitamente atual e pertinente.

Claro, o Machado de Assis romântico escreveu livros chatíssimos, coisa do nível de José de Alencar (vocês não podem ver, mas, neste momento estou com o dedo na garganta, tentando induzir o vômito. Iracema=zzzzzz). E tem o Guimarães Rosa, mas o Guimarães Rosa não conta. Rosa é o Garrincha da nossa literatura. Só ele faz o que ele faz e pronto. É incomparável porque não existe parâmetro para comparação. E já que enveredei pelo caminho de citar outros, vale observar que acho os escritores brasileiros, de forma geral, excepcionais. Nossos "bardos" são mestres da forma e do conteúdo e, sim, é um enorme desperdício esse talento descomunal em um país de não-leitores. Lemos a nada invejável média de 4,7 livros ao ano (e compramos apenas 1,1, o que deve dar um livro mais umas vinte páginas avulsas). A média até não seria tão desastrosa se não incluísse livros infantis (que só minha filha lê uns vinte) e fosse menos concentrada (um pouquinho lê quinze e um tantão não lê nada). E a amostra fica ainda mais contaminada se formos contar o tanto de gente que só lê Paulo Coelho! Convenhamos, ler cinco livros do Paulo Coelho em um ano é coisa pra tratamento.

Quer mais? Um livro no Brasil é considerado Best-seller se vender três mil exemplares, o nicho que mais vende é auto-ajuda e um dos principais outlets de venda no país é a Avon.

Ainda bem que nosso presidente incentiva a leitura com frases como "ler é igual a andar de esteira: bem chato no começo, mas depois a gente acostuma". Ai, ai...

Mas eu ia falar de outra coisa. Normal. Quem escreve sabe que, às vezes, o processo de escrever modifica o projeto de escrever. Retomo o tema na próxima crônica.

Como é que é?

Um dia desses... Mais precisamente, dia 6 de abril de 1.988... O quê? Tenho culpa se minha memória é boa? Enfim, um dia desses ouvi um comentário que me chamou a atenção. Era uma aula de história e o tema era escravatura: os índios brasileiros eram preguiçosos e indisciplinados; eles não se adaptaram à escravidão.

Vinte anos depois, não sei se por maturidade cultural ou falta do que fazer, me peguei pensando: mas alguém se adapta à escravidão? Alguém se acostuma a ser sacaneado? Os africanos eram mais aptos à escravidão? Mandavam currículo, por acaso? Faziam psicotécnico?

É claro que alguém que recebe uma paulada na cabeça todo dia pode não revidar, por falta de coragem, oportunidade ou alternativa. Mas isso não significa que a pessoa goste, que esteja adaptada! Provavelmente, quanto menor o revide, maior será o sentimento de vingança, revolta e angústia. Mais: havia um tom meio pejorativo na fala do professor (sim, eu me lembro do tom pejorativo), como se fosse demérito do índio ser mais indolente quanto à escravidão. Pô! Não tá vendo o negão aqui dando um duro danado? Ele também tá na mesma situação que você e não reclama! Não reclamava provavelmente porque não sabia falar português e porque, se fugisse, ia voltar pra casa como? A nado? Sem contar que o que teve de revolta negra não foi bolinho, mostrando que adaptados à situação estavam só mesmo os senhores de engenho e sua curriola agregada.

Em minha opinião, o sacaneado tem direito à revolta, à indisciplina e à inconformidade. Já o sacaneante (ou sacaneador, como queiram, já que as duas palavras não existem) não deve nem fazer bico, nem se sentir injustiçado. E que vá para a Casa do C*%*&ho aquele que resolve julgar o sacaneado, índio ou qualquer outro, pela sua reação e não pelo que foi feito com ele.

Rapaz, foi bom desabafar! Faz vinte anos que eu tava com esse troço por aqui, ó. Por aqui!

Historinha 2

Boas justificativas nem sempre precedem boas atitudes. Não se preocupe que você não vai precisar tirar conclusões sobre essa frase assim num repente. Vou dar um exemplo e, ao final, ainda pretendo concluir meu raciocínio. Aproveite que não é todo dia que me esforço para ser coerente.

Em 1950, os Estados Unidos e a União Soviética ensaiavam os primeiros passos da guerra fria que se estenderia por anos a fio. Os dois países faziam parte do Conselho de Segurança da ONU, mas, como a relação já andava azeda e os objetivos dos EUA já divergiam dos objetivos soviéticos, a União Soviética parou de freqüentar as reuniões do Conselho de Segurança.

Ora, todas as decisões do Conselho precisavam ser unânimes e o boicote soviético implicou o congelamento das pautas. Coube aos diplomatas americanos, devidamente assessorados por bons advogados, a missão de reinterpretar o Estatuto da ONU para fazer as coisas andarem novamente. Eles descobriram que, por conta de uma redação vaga, as pautas poderiam, na verdade, ser aprovadas por consenso. Ou seja, a unanimidade dos presentes. Assim, eles não precisariam da União Soviética. Bastava, para isso, uma releitura do estatuto.

O argumento americano foi sólido: não temos condições de esperar a União Soviética. O Conselho de Segurança é um órgão importante das Nações Unidas e não pode se dar ao luxo de simplesmente se congelar no tempo e no espaço. A ação rápida e incisiva sempre foi característica marcante do Conselho e isso é o que diferencia a ONU daquela outra tentativa fracassada de instituição internacional chamada Liga das Nações. E tem mais: não estamos fazendo nada de errado, pois não estamos reescrevendo o estatuto, estamos apenas reinterpretando o que já está lá.

Nobre. Correto. Pró-ativo. Criativo. Praticamente inevitável, dadas as circunstâncias. A Assembléia Geral da ONU deu o sinal verde.

E os Estados Unidos aproveitou-se da situação pra, sem a interferência soviética, aprovar a invasão da Coréia por tropas militares americanas*.

Foi a primeira de muitas situações na qual o governo americano encheu-se de boas justificativas para fazer algo injustificável. Ou, melhor, algo que só se justifica do ponto de vista dos interesses políticos e econômicos norte-americanos. E toda a turma que assina embaixo da justificativa normalmente tem o hábito de continuar assinando embaixo das cagadas subsequentes - agora sem o trema (o subsequente e não as cagadas)!

O que acontece na política internacional é reflexo da natureza humana. Os governantes mentem e são dissimulados porque o ser humano mente e é dissimulado. Os governantes são brilhantes porque o ser humano tem a capacidade de ser brilhante. E os indivíduos também têm interesses políticos e econômicos. Por isso, fica o alerta: cuidado com as pessoas cujas justificativas (ou intenções) são sempre melhores que suas atitudes.


* Essa história tem mais detalhes, que omiti propositadamente, senão o Ninguém Perguntou acaba tendo algum tipo de valor educativo. Se quiser cultura, vá ler um livro.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Historinha

300 anos de escravidão explicam muita coisa. Explicam, por exemplo, porque o brasileiro desvaloriza tanto o trabalho, já que o mesmo foi sinônimo de esforço ininterrupto para o enriquecimento dos outros. Explica porque o brasileiro valoriza tanto a hierarquia pois os senhores de engenho e de terras da época eram soberanos e todos deviam obediência a eles (todos, menos a Coroa portuguesa*, claro. Existe sempre um cachorro maior...). "Você sabe com quem está falando?" é uma frase que quase todo brasileiro já ouviu e, secretamente, adoraria poder dizer.

No resto do mundo, trabalha-se para enriquecer. No Brasil, a gente quer enriquecer pra parar de trabalhar.

Muita coisa mudou, mas o trabalho ainda é largamente desvalorizado. Um adolescente de classe média não considera ainda digno ganhar uns trocados lavando louças em um restaurante ou cuidando dos filhos dos outros, como é comum no Canadá, Austrália e Estados unidos. Além disso, precisamos de leis trabalhistas duras, complexas e em excesso para garantir o bom andamento das coisas e evitar a exploração da mão-de-obra. Mas crianças ainda participam do mercado informal e empresas de médio e pequeno porte têm até medo de contratar por conta dos impostos e obrigações.

Quem trabalha ainda é escravo hoje em dia. Não porque não receba dinheiro, mas pela falta de opções. Ainda é muito raro encontrar alguém recebendo um salário honesto fazendo aquilo que gosta. O funcionalismo público parece ser a única saída para a classe média, que deveria passar a se chamar classe medíocre, pois a cada dia que passa fica menos crítica, menos ousada e menos influente. E mais desejosa de trabalhar no TCU mesmo que tenha feito vestibular para bioquímica.

Eu exagero, claro. E, além disso o atual estado das coisas no Brasil não pode ser completamente explicado pelos 300 anos de escravidão. Eles deixaram sua marca e alguns grilhões sociais parecem ainda estar em pleno funcionamento, mas, no fim, em uma boa parte das prisões, os detentos lá estão por conta de seus próprios atos.


 

* Não consigo usar essa expressão sem imaginar uma velha mal-encarada de bigodes fartos. Com você também é assim?